Autoria feminina · Impressões literárias

Oroonoko ou o Escravo Real, de Aphra Behn

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Em nossa literatura nacional, Peri, do livro O Guarani, do cearense José de Alencar, é considerado “o bom selvagem”, termo que ficou famoso através de Jean Jacques Rousseau ao abordar que o homem nasce bom, porém com o tempo ele se corrompe através das relações sociais, “o homem é o lobo do homem”, outra frase famosa do francês.

O bom selvagem aparece de forma inusitada no pequeno romance Oroonoko, publicado em 1688, de uma inglesa que estava há anos luz de seus conterrâneos. A vida de Aphra Behn é envolta de incertezas. Não se sabe com exatidão onde nasceu e como foi sua vida. Ao que pode ser verificado é o fato dela ter sido, por um breve tempo, espiã inglesa na Holanda. Também é verificável o fato dela não ter ricos a patrocinando, os famosos mecenas. É outorgado a ela o título de ser a primeira escritora a viver exclusivamente da venda de suas obras. Mesmo sendo mulher em uma sociedade ainda mais machista do que atualmente, Aphra conquistou fama e riqueza ao ponto de ser enterrada, aos 49 anos, na Abadia de Westminster.

oroonokoEm pleno século XVII, a escritora criou um romance em que os protagonistas são um casal de negros. Em Oroonoko ou o Escravo Real, tem-se a narração em terceira pessoa através do olhar de uma mulher – que muito se especula que seja a própria Behn rememorando o seu tempo em que morou no Suriname –  a trágica história de um príncipe de um distante reino africano que teve sua vida mudada, após ele e seu avô, o rei, disputando o amor da bela Imoinda.

A narradora não poupa elogios a Oroonoko. É descrito como belo, inteligente, leal, valente…  o bom selvagem! É de uma ingenuidade sem igual sendo recorrente ser enganado por mentiras. Sua inocência em não ver a vilania no próximo é justificada pelo fato dele não ter sido imerso em relações calcadas na mentira, na falsidade, na traição, por isso é tão fácil os homens brancos o ludibriarem. Em uma das mentiras, ele é capturado e torna-se escravo em uma fazenda no Suriname. Sua tristeza diminui ao encontrar Imoinda na mesma fazenda. Todavia, a vida do herói é uma sucessão de tristezas e se tem o que possivelmente seja a primeira rebelião de pessoas escravizadas na literatura.

A narrativa cai em clichês como a suposição que a prática da poligamia é comum em todas as nações africanas, da surpresa em narradora conhecer que negros podem ser “civilizados”, que há amor nas relações entre negros, entre outras; e também esbarra em comentários racistas. Contudo, a obra é de um vislumbre sem par justamente por romancear e ter como herói um negro.

Seu rosto não era daquele preto castanho-ferrugem que predomina em sua raça, mas da mais perfeita cor do ébano. Seus olhos causavam espanto e eram muito penetrantes, com o branco da cor da neve, como seus dentes. Seu nariz era romano, levemente elevado, e não achatado, como é típico dos africanos. Sua boca era do mais perfeito desenho, muito longe daquele formato tão comum entre os membros da raça negra, de lábios carnudos e revirados. As proporções e a expressão de seu rosto eram de tal nobreza e de formas tão perfeitas que, a não ser por sua cor, nada poderia haver na natureza de mais belo, de mais agradável ou de mais simpático… (BEHN, 1999, p. 32-33)

Referências

BEHN, A. Oroonoko ou o Escravo Real: uma história verdadeira. Trad. e apresentação Élvio Antônio Funck. Florianópolis: Editora Mulheres, 1999.

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Filmes

Melody, 1963: O amor tem que vencer, uma história de uma garota americana

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Por muito tempo rechacei a cultura americana. Cresci escutando opiniões paternas que os Estados Unidos queria ser o dono do mundo, sempre metendo-se em assuntos que não o cabiam. Lembro-me da época que se discutia muito sobre a ALCA (área de livre comércio na América) e como seria danoso para os países emergentes e ótimo para os EUA. Aquele nacionalismo exacerbado que era comum ver em filmes confirmava a prepotência dessa nação.

Ainda sinto um sentimentozinho contra a terra do Tio Sam, todavia ao começar a enveredar pelos estudos dos movimentos negros descobri uma faceta dos estadunidenses que me agrada. As grandes teóricas negras feministas são de lá – bell hooks, Angela Davis, Alice Walker  –, os grandes exemplos de articulações entre negros também é de lá – Panteras Negras  –, a noção de unidade e de mãos dadas que melhor funcionou foram dos negros dos Estados Unidos. Além disso, sinto muita inveja (confesso) de como eles falam, com grande espaço na mídia, do passado de jugo, do racismo. A sensação que sinto, é que nós brasileiros estamos em anos de atraso em relação a eles em epistemologias e abordagens raciais. Pautas que hoje para nós são recentes (digo em visibilidade, pois aqui no Brasil também houve organizações de pessoas negras), lá já eram discutidas na década de 50.

Meu processo de desconstrução é cotidiano. Em boa parte da minha vida como apreciadora de séries e filmes, eu deixei de lado produções com atores negros. Lembro BR21197que não curtia, porque sempre havia um viés político que eu não entendia: Um Maluco no Pedaço, Todo Mundo Odeia o Chris. Mesmo sendo uma pessoa negra (algo que só tomei consciência tardiamente), eu não entendia o que eles diziam em tom de piada, mas com uma dose de crítica. Meu nível era Sai de Baixo, A Grande Família e olhe lá. Hoje, ao ver algum episódio dessas séries que citei, percebo vários diálogos que outrora foram despercebidos e hoje fazem total sentido (recentemente reassisti ao Um Príncipe em Nova York e fiquei impactadíssima com as críticas ao racismo da sociedade americana que há no filme de 1988). Em outras palavras, eu era uma alienada.

 

Essa introdução enorme foi para chegar ao ponto do episódio que assisti ontem. Melody, 1963: O amor tem que vencer, uma história de uma garota americana, ao que parece faz parte de uma série que retrata garotas americanas de etnias diferentes em anos diversos. Há três episódios na Amazon Prime e o primeiro é justamente com a protagonista negra Melody sendo contextualizado no ano de 1963.

d4731ec8b5bf611a4e6b8f37919a205d--american-girlsMelody é uma menina super criativa, que costura fantasias que dão asas a sua imaginação. Sua família consiste em sua mãe e seu avô paterno. Logo no início do episódio, ao mostrar sua fantasia de astronauta para o avô, o patriarca meio que dá um banho de água fria nos sonhos da menina. Ele mostra a notícia que meninas negras com idade próxima a da Melody foram presas simplesmente por quererem lanchar em uma lanchonete específica. A menina mora em Detroit que fica na parte do norte do país, o que a coloca em um lugar pouco menos perigoso para pessoas negras já que no sul do país do apartheid ainda vigora. Mas mesmo assim, mesmo morando na região norte, o racismo ainda está lá à espreita, nos pequenos olhares, no convívio social, nas relações de trabalho e na falta de oportunidades.

A mãe da Melody é uma mulher viúva que perdeu o marido na guerra. É uma exímia pianista, porém trabalha como costureira em uma fábrica. A carreira interrompida como resultado do racismo é “esfregada” na cara da mulher através do diálogo do avô. Aliás, esses dois personagens, avô e mãe, são sujeitos com perspectivas diferentes da sociedade. O primeiro é pessimista, acredita que a sociedade nunca vai deixar de segregá-los tornando a vida deles para sempre difícil; a mãe já é esperançosa e incuti na filha esse sentimento que um dia ela será capaz de realizar tudo o que sonhou.

A personagem materna me remeteu ao texto À procura dos jardins de nossas mães, da Alice Walker. No texto, a escritora americana critica o texto conhecidíssimo de Virgínia Woolf, Um teto todo seu. O texto da inglesa fala sobre o que é necessário para uma escritora ser capaz de produzir literatura: tempo, dinheiro e um teto todo seu. Alice concorda, mas para uma mulher negra isso não se encaixa. Ela rememora as mães e avós, “as mulas do mundo”, que carregam em seus corpos o peso da escravidão (casamentos arranjados, maternidades seguidas, violências sexuais), mas em algum lugar de suas almas, guardavam sua arte, que às vezes podia se manifestar em coisas simples, como o cuidado com um jardim.

“Você teve um gênio de bisavó que moImagem relacionadarreu sob o chicote de algum capataz branco e depravado? Ou ela foi obrigada a assar biscoitos para um vagabundo preguiçoso de um lugarejo qualquer, quando ela gritava na sua alma para pintar aquarelas de pôr-do-sol, ou a chuva caindo nas pastagens verdes e cheias de paz? Ou o seu corpo alquebrado era forçado a gerar filhos (que as mais das vezes eram vendidos e apartados delas) – oito, dez, quinze, vinte filhos – quando sua única alegria era modelar figuras heroicas de Rebelião, em pedra ou argila? (WALKER, p. 324, 1986)

Melody diante de seguidos episódios de violência contra pessoas negras começa a questionar o porquê que os policiais só batem em negros, o porquê do hino falar é lealdade para todos sendo que os americanos negros são tratados de forma diferente. A outrora garotinha imaginativa dá lugar a uma menina irritada com a sociedade que não a aceita por conta da sua tonalidade de pele. É triste ver seus sonhos interrompidos ao constatar que sua vida será bem mais árdua do que dos colegas brancos da escola.

Entretanto o episódio não é triste como um todo, visto que é uma produção destinada às crianças. É uma excelente produção para iniciar crianças sobre pautas raciais e até para conscientizar adultos de como o racismo se manifesta. A protagonista é cativante e mesmo com pouca idade é capaz de fazer uma minirrevolução.

 

Referências

WALKER, A. À procura dos jardins de nossas mães. WILMORE, G.S.; CONE, J. H. (org.). Teologia Negra. Trad. Euclides Carneiro. São Paulo: Paulinas, 1986.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu.  Trad. Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

 

Autoria feminina · Autoria Negra · Impressões literárias · Literatura Brasileira

Ponciá Vivêncio, da Conceição Evaristo

 

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Na minha trajetória de leituras de escritores negros brasileiros o nome da Conceição Evaristo sempre foi presente, porém postergava meu primeiro contato com suas narrativas. Então li e me rendi à grandeza da escrita dessa escritora mineira que possui uma trajetória de vida não muito diferente de muitos brasileiros a fora. Nascida em uma favela, desde criança trabalhou para ajudar em casa. Tardiamente entrou no ensino superior, todavia uma vez demarcado o território da academia não o largou mais e hoje é doutora em Literatura.

     511a45eq5JL     O primeiro livro que lida Conceição Evaristo foi Olhos d’Água composto por vários contos em que os protagonistas vivenciam a triste sina de serem brasileiros negros em uma sociedade misógina e racista. Muitos contos mexeram comigo justamente por visualizar vidas que poderiam muito bem ser a da minha vó, de alguma tia, do meu vô, etc.

          Ponciá Vivêncio publicado pela primeira vez em 2003 foi o primeiro romance a venda da autora. Como ela mesmo diz no prefácio da minha edição (Pallas, 2018), o livro foi auto custeado, e que teve sorte em ter seu romance escolhido para diversos vestibulares de universidades mineiras. Conceição diz: “o ato política de escrever vem acrescido do ato político de publicar”, revela-se que a vivência narrativa da autora é calcada em uma militância de vencer barreiras em um mercado literário que dificulta – ainda mais – a publicação de obras de escritoras negras.

          O título da obra é o nome da protagonista do romance. Além disso, trata-se de um bildungsroman, ou seja, aborda o desenvolvimento do protagonista desde a sua infância até a idade madura e o leitor acompanha o desenvolvimento desse personagem através de situações críticas. Não muito comum com personagens femininas, a opção da construção da narrativa nesse modelo de desenvolvimento do personagem já mostra uma ruptura com cânone machista que faz da narração de personagens masculino o centro de diversas obras consideradas de “alta cultura”. Voltando à Ponciá… A menina carrega em si semelhanças com o avô paterno, um homem sem sanidade e sem um  dos braços. A menina pouco conviveu com o avô e surpreendentemente possui caracteres que eram do patriarca: andar com braço para trás, perder o olhar por longo tempo, opção pelo silêncio em excesso.

          A família mora nas terras do antigo patrão do avô, um senhor de terra que repassou para seus antigos escravos o seu nome, Vivêncio. Também repassa pedaços de terras, mas logo em seguida, aproveitando da ingenuidade, as toma novamente passando a falsa ideia para os moradores de que possuem um pedacinho de terra próprio. Percebe-se que o contexto da vida de Ponciá é próximo no período escravagista, sendo seu pai o primeiro da geração do Ventre Livre. Com o decorrer da leitura saberemos que a questão do direito à liberdade será um mote que influencia a personalidade meio senil meio introspectiva do avô da protagonista.

         519j4iD9idL Terezinha Taborda Moreira em seu artigo Silêncio, trauma e escrita literária (2016) analisa o elemento do silenciamento em Ponciá e como ele não pode ser interpretado como um elemento de subalternidade, mas o contrário. A então mulher Ponciá apropria-se do silêncio como resistência a uma vida repleta de perdas afetivas, de miséria e de violência. Diferente da personagem Beatrice, do romance Hibisco Roxo, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que é silenciada pelo patriarcado que na figura do marido reproduz violência doméstica contra a esposa. Ponciá tem consciência do silêncio e opta por ele; Beatrice é amordaçada simbolicamente através de performances do patriarcado.

escrevivencias-capa-1Terezinha diz: “o silêncio é a resposta que a personagem oferece a uma condição de subalternidade que lhe é imposta, a qual é de ordem patriarcal, mas também racial e de classe. No contexto narrativo da obra, é pelo silêncio que a personagem resiste a essa condição” (2016, p. 111). Interessante perceber a subversão que a personagem faz, sendo um elemento a mais de movimentos contra a maré, que inicia-se desde a escritora, que rompe com todos os interditos que são colocando na trajetória de um escritor negro, até a protagonista (e heroína, ora pois) que transpõe obstáculos a sua maneira.

 

Referências

EVARISTO, C. Ponciá Vivêncio. 3ª ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.

MOREIRA, T. T. Silêncio, trauma e escrita literária. Duarte, C.D.; Côrtes, C. Pereira, M.R.A. (org.). Escrevivências: identidade, gênero e violência na obra de Conceição Evaristo. Belo Horizonte: Editora Idea, 2016.

 

Vida acadêmica

Voltando (de novo)

O ano é 2019. Na postagem anterior prometi que iria voltar a postar no blog minhas leituras e um ano depois, cá estou tentando novamente movimentar este espaço pelo qual nutro bastante carinho.

Sobrevivi aos trancos e barrancos do ano de 2018. 2019 mal começou e já está acabando com minha paz espiritual, porém se tem um coisa valiosa que aprendi em 2018 foram táticas para diminuir os danos que situações externas causam a mim (e internas também, oxalá!).

Ainda não finalizei o mestrado, porém falta pouco. Já qualifiquei e enviei para apreciação do meu orientador o terceiro capítulo. Estou aproveitando este primeiro semestre do ano para adiantar muitas metas que tracei para mim, pois se Deus quiser, o próximo semestre será de muito trabalho (vem, nomeação! Assina, Camilin!).

Ontem recebi no meu email a notificação que alguém comentou em uma postagem minha. Foi justamente essa sinalização que me fez lembrar da existência desse blog. Pensei em excluir ou voltar a utilizá-lo. Optei pela segunda opção com a resolução de que ele terá postagem mais específicas.

A área da literatura que me afeiçoa e pesquiso é literatura de autoria negra (seja homem ou mulher, seja africana, norte-americana, latina… gosto de escritores negros e ponto) e a literatura brasileira de autoria feminina. Portanto, as próximas postagens serão sobre obras que tangem esse escopo. Vou tentar criar um calendário para postagens, talvez quinze e quinze dias. Vamos ver com o tempo. A obra que inaugurará essa nova fase do blog será Ponciá Vivêncio, da Conceição Evaristo, última obra que terminei de ler recentemente.

então é isso! Desejem-me persistência!

 

Vida acadêmica

Voltando…

Olá, pessoas!

A última postagem nesse bloguinho foi no dia 30/12/2016. Cá estou novamente em pleno 03/01/2018. O ano de 2017 foi bem intenso, a tal ponto que olho para trás e me admiro que vivi tanta coisa em 12 meses.

2017 eu ingressei no mestrado. Larguei meu emprego e fui morar em uma capital. Tive que aprender a lidar com a correria do trânsito, a depender de transporte público, a aproveitar melhor meu dia visto que passo um tempo precioso em ônibus, lidar com o primeiro assalto e, principalmente, a lidar com o ego acadêmico de alunos e professores.

Graças a Deus, nessa caminhada, encontrei pessoas super legais. Pessoas, que assim como eu, sofriam os baques acadêmicos, as frustrações financeiras, as cobranças de artigos, eventos, disciplinas…

Viajei para Salvador e Campina Grande. E ratifico: o Nordeste é o meu país!

Despedi-me de Belchior, lá no Dragão do Mar.

Conheci a Pauline Chiziane e a Marina Colasanti.

Comprei um celular de 500 reais que faz a mesma coisa que o meu furtado que foi 1.300. De certa forma me desapeguei desse aparelhinho que parece que se tornou uma parte de nós.

Talvez tenha sido o ano que menos tirei foto. Não sou mais tão adepta de selfies e de registar o que acontece na minha vida para, posteriormente, postar no Facebook ou Instagram. Aliás, consegui desativar e não se sentir falta do primeiro, e o segundo está na mira da desativação.

Senti-me muitas vezes burra e deslocada dentro da universidade. trabalhei esse sentimento e acho que não sou tão medíocre assim e que no final vai dar tudo certo. Aliás, não vejo a hora de terminar esse mestrado para poder voltar a ler em paz. Depois do ingresso, não consigo ler coisas fora da dissertação sem peso na consciência. Antes pensava em emendar no doutorado. Hoje não. Quero paz mental, espiritual (e acadêmica).

2018 mal começou e estou levemente cansada. Contudo é essa pseudo fadiga que me impulsionará. Haverá qualificação, defesa, copa, eleição e, possivelmente, a prorrogação de um concurso que passei em 2016 e que anseio muito ser nomeada.

2018, seja rápido e indolor, por favor.

citações

Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã

Quero aqui imitar os retóricos da atualidade que se julgam pequenos deuses quando, como a sanguessuga, parecem servir-se da sua língua, e têm por algo maravilhoso entrelaçar, a torto e a direito, num discurso latino, vocábulos gregos que o tornam enigmático. Se não sabe, línguas estrangeiras, tiram de um embolorado alfarrábio quatro ou cinco velhas palavras com as quais ofuscam o leitor. Os que os compreendem, gabam-se de encontrar uma oportunidade que lhes permite comprazer-se de sua erudição; e quanto mais ininteligíveis parecem aos que os não compreendem, tanto mais são admirados.

Os velhos apreciam bastante a companhia das crianças, e estas a dos velhos, pois os deuses gostam de unir os semelhantes.

Conto/Crônicas prediletas

Crônica: Maria José, Paulo Mendes Campos

Faz um ano que Maria José morreu. Era meiga quase sempre, violenta quando necessário. Eu era menino e apanhava de um companheiro maior, quando ela me gritou da sacada se eu não via a pedra que marcava o gol. Dei uma tijolada no outro e acabei com a briga por milagre.

Visitava os miseráveis, internava indigentes enfermos, devotava-se ao alívio de misérias físicas e morais do próximo, estudava o mistério teológico, exigia sempre o mais difícil de si mesma, comungava todos os dias, ingressou na Ordem Terceira de São Francisco. Mas nunca deixou de ter na gaveta o revólver que recebera, menina-e-moça, das mãos do pai, e que empunhou no quintal noturno, perseguindo um ladrão, para espanto de meus cinco anos.
Tratou-me com a dureza e o carinho que mereciam a rebeldia e o verdor da minha meninice. Ensinou-me a ler as primeiras sentenças; me falava do Cura d’Ars e nos dois Franciscos, o de Sales e o de Assis; apresentou-me aos contos de Edgar Poe e aos poemas de Baudelaire; dizia-me sorrindo versos de Antônio Nobre que decorara em menina; discutia comigo as ideias finais de Tolstoi; escutava maternalmente meus contos toscos. Quando me desgarrei nos primeiros enleios adolescentes, Maria José com irônico afeto me repetia a advertência de Drummond: “Paulo, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda feira ninguém sabe o que será”.

Logo que me fiz homenzinho, deixou a dureza e se fez minha amiga: nada me perguntava, adivinhava tudo.
Terna e firme, nunca lhe vi a fraqueza da pieguice. Com o gosto espontâneo da qualidade das coisas, renunciou às vaidades mais singelas. Sensível, alegre, aprendeu a encarar o sofrimento de olhos lúcidos. Fiel à disciplina religiosa, compreendia celestialmente as almas que transviam. Fé, Esperança e Caridade eram para ela a flecha e o alvo das criaturas.
Tornara-se tão íntima da substância terrestre – a dor – que se fazia difícil para o médico saber o que sentia; acabava dizendo que doía um pouco, por delicadeza.

Capaz de longos jejuns e abstinências, já no final da vida, podia acompanhar um casal amigo a Copacabana, passar do bar da moda ao restaurante diferente, beber dois cafés ou três uísques em santa serenidade e aceitar com alegria o prato exótico.

Gostava das pessoas erradas, consumidas de paixão, admirava São Paulo e Santo Agostinho, acreditava que era preciso se fazer violência para entrar no reino celeste.

Poucas horas antes de morrer, pediu um conhaque e sorriu, destemida e doce, como quem vai partir para o céu. Santificara-se.
Deus era o dia e a noite de seu coração, o Pai, a piedade, o fogo do espírito.
Perdi quem me amava e perdoava, quem me encomendava à compaixão do Criador e me defendia contra o mundo de revólver na mão.