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Milton Santos, O paí, ó e Pelorinho: intersecção de afeto e cor

O texto de hoje foge um pouco do que costumo escrever por aqui. Partindo de um ponto, no caso o Pelourinho, associei o objeto a outras mídias e referências: Milton Santos, a peça/filme/série Ó paí, ó e minhas impressões sobre o local. A escrita deste texto coincide com o aniversário de Salvador, a cidade que conquistou meu coração.

Milton Santos é sem sombra de dúvidas o maior geógrafo brasileiro. Lembro que meu primeiro contato com ele foi através do único professor de geografia que tive, que assim como o seu ídolo, também era negro. Uma vez em sala de aula, esse meu professor que tinha um temperamento bem calmo, disse com uma exaltação e um furor que em cinco anos de proximidade eu nunca tinha visto. “Milton Santos, um homem negro e de origem humilde, tornou-se o maior geógrafo do Brasil”. Só anos depois que fui entender a importância de se usar o adjetivo negro na frase. Só muito tempo depois é que fui entender minimamente a importância de Milton Santos.

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Sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Strasbourg em 1958 é intitulada “O Centro da Cidade de Salvador: Estudo de Geografia Urbana”. Tive recentemente o prazer de lê-la e recorrentemente associava a minha experiência fantástica que foi conhecer Salvador em 2017. Indo além, também associei a obra de Márcio Meirelles, A trilogia do Pelô (1995), que depois foi adaptada para os cinemas com o título O paí, ó, posteriormente tornando-se uma minissérie.

 

“A área mais densamente ocupada da Cidade Salvador corresponde grosso modo ao centro, parte mais antiga da cidade, cujo sítio é o que apresenta maiores dificuldade de utilização. […] É uma faixa de dois quilômetros de largura máxima, de mais ou menos seis quilômetros de extensão, acompanhando a Baía de Todos os Santos. O centro da aglomeração corresponde à parte mais larga; ele cresceu dente o primeiro século, mais aumentou ainda mais nitidamente agora.” (SANTOS, 2008, p. 58 – 62)

 

A relação está justamente na questão geográfica. A peça O paí,ó, do Teatro do Olodum, que depois de anos sendo transmitida oralmente, passa pela literarização pelas mãos de Márcio Meirelles, aborda a questão da revitalização do centro de Salvador, atingindo em especial os moradores da região da cidade alta, com ênfase aos do Pelourinho. Em 1958, Milton já observava a situação de marginalidade que a região vivia. Outrora um lugar de pompa, tornou-se um ambiente de cortiços, onde várias famílias pobres moravam em condições muitas vezes insalubres, dividindo espaço com prostituição, usuários de drogas. “Os cortiços são o resultado da degradação progressiva desses velhos casarões e sobrados, construídos no centro da cidade quando essa era parte residencial rica.” (SANTOS, 2008, p. 162). Era um ambiente hostilizando pelas políticas públicas e pela própria sociedade. O geógrafo já indicava a necessidade de se revitalizar o local.

Porém, ao usarmos esse termo “revitalizar” esbarramos numa ótica capitalista, no qual intentar melhorar um local ambicionando torná-lo um local que gere lucros, ou seja, aluguéis, turismos, ofertas de serviços. Os que já moram, muitas vezes, são indenizados ou remanejados para outros locais. A questão que surge é: revitalizar para quem? Para os interesses dos negócios o para os moradores? A gente sabe a resposta.

A peça aborda essa revitalização proposta pelo governo do Estado. Já o filme e a série homônima abordam outras temáticas, como o assassinato de vidas negras, o mercado informal, sincretismo religioso, o racismo estrutural, entre outros.  

Minha experiência com o Pelourinho foi mágica. O local é uma transporte à história. A abertura do evento que eu participei foi na antiga Faculdade de Medicina que fica no Terreiro de Jesus. Como meu conhecimento era pífio, não imaginava que já estava na região histórica. Dei umas voltinhas ao redor da praça, tive meus primeiros impactos com a existência exagerada de igrejas por metro quadrado, mas também tomei noção do assédio de vendedores ambulantes. No outro dia, ao turistar foi que tomei noção do local grandioso, riquíssimo e abarrotado de cultura. Salvador é um local que guardo no coração e que espero em breve voltar tendo à tiracolo pessoas queridas para assim como eu, vislumbrarem-se.    

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Movida por essa paixão por Salvador, fui atrás de assistir o filme e minissérie Ó paí, ó. Familiarizada com questões raciais, pude perceber as inúmeras críticas que os diálogos possuem. O personagem Roque, interpretado nas telas por Lázaro Ramos, personifica Sócrates com suas indagações através da maiêutica. Ele tem uma marca de utilizar frases de impactos, e quando alguém o elogia, ele diz que não é dele, e sim de fulano de tal. É um homem culto, crítico, que possui um trabalho braçal mas se divide pela paixão à música. É de todos meu personagem favorito.

O interessante é que o Teatro do Olodum há tempos encena a peça, o livro do Meirelles desde 1995 está nas livrarias, a minissérie foi encerrada em 2008, e só agora, dos últimos cinco anos para cá, é que as pautas negras estão ganhando uma visibilidade que nunca antes havia sido dada. Toda essa produção foi resultado do Teatro Experimental do Negro da década de 40, que foi interrompido com o exílio de Abdias do Nascimento.

Penso que se a trajetória de conscientização racial, de classe e gênero que Abdias e outros intelectuais e militantes negros estavam traçando não tivessem sido interrompidas, hoje seríamos uma sociedade bem melhor e, com certeza, teríamos mais capacidade para escolher nossos representantes.

 

Referências

MEIRELLES, M.; BANDO DE TEATRO OLODUM. Trilogia do Pelô: essa é nossa praia; Ó Pai Ó; Babai, Pelô. Salvador: FCJA; Copene, Grupo Cultural Olodum, 1995. 

SANTOS, M. O centro da cidade de Salvador: estudo de geografia urbana. 2ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Salvador: Edufba, 2008. 

 

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Vida acadêmica

Voltando (de novo)

O ano é 2019. Na postagem anterior prometi que iria voltar a postar no blog minhas leituras e um ano depois, cá estou tentando novamente movimentar este espaço pelo qual nutro bastante carinho.

Sobrevivi aos trancos e barrancos do ano de 2018. 2019 mal começou e já está acabando com minha paz espiritual, porém se tem um coisa valiosa que aprendi em 2018 foram táticas para diminuir os danos que situações externas causam a mim (e internas também, oxalá!).

Ainda não finalizei o mestrado, porém falta pouco. Já qualifiquei e enviei para apreciação do meu orientador o terceiro capítulo. Estou aproveitando este primeiro semestre do ano para adiantar muitas metas que tracei para mim, pois se Deus quiser, o próximo semestre será de muito trabalho (vem, nomeação! Assina, Camilin!).

Ontem recebi no meu email a notificação que alguém comentou em uma postagem minha. Foi justamente essa sinalização que me fez lembrar da existência desse blog. Pensei em excluir ou voltar a utilizá-lo. Optei pela segunda opção com a resolução de que ele terá postagem mais específicas.

A área da literatura que me afeiçoa e pesquiso é literatura de autoria negra (seja homem ou mulher, seja africana, norte-americana, latina… gosto de escritores negros e ponto) e a literatura brasileira de autoria feminina. Portanto, as próximas postagens serão sobre obras que tangem esse escopo. Vou tentar criar um calendário para postagens, talvez quinze e quinze dias. Vamos ver com o tempo. A obra que inaugurará essa nova fase do blog será Ponciá Vivêncio, da Conceição Evaristo, última obra que terminei de ler recentemente.

então é isso! Desejem-me persistência!

 

Vida acadêmica

Voltando…

Olá, pessoas!

A última postagem nesse bloguinho foi no dia 30/12/2016. Cá estou novamente em pleno 03/01/2018. O ano de 2017 foi bem intenso, a tal ponto que olho para trás e me admiro que vivi tanta coisa em 12 meses.

2017 eu ingressei no mestrado. Larguei meu emprego e fui morar em uma capital. Tive que aprender a lidar com a correria do trânsito, a depender de transporte público, a aproveitar melhor meu dia visto que passo um tempo precioso em ônibus, lidar com o primeiro assalto e, principalmente, a lidar com o ego acadêmico de alunos e professores.

Graças a Deus, nessa caminhada, encontrei pessoas super legais. Pessoas, que assim como eu, sofriam os baques acadêmicos, as frustrações financeiras, as cobranças de artigos, eventos, disciplinas…

Viajei para Salvador e Campina Grande. E ratifico: o Nordeste é o meu país!

Despedi-me de Belchior, lá no Dragão do Mar.

Conheci a Pauline Chiziane e a Marina Colasanti.

Comprei um celular de 500 reais que faz a mesma coisa que o meu furtado que foi 1.300. De certa forma me desapeguei desse aparelhinho que parece que se tornou uma parte de nós.

Talvez tenha sido o ano que menos tirei foto. Não sou mais tão adepta de selfies e de registar o que acontece na minha vida para, posteriormente, postar no Facebook ou Instagram. Aliás, consegui desativar e não se sentir falta do primeiro, e o segundo está na mira da desativação.

Senti-me muitas vezes burra e deslocada dentro da universidade. trabalhei esse sentimento e acho que não sou tão medíocre assim e que no final vai dar tudo certo. Aliás, não vejo a hora de terminar esse mestrado para poder voltar a ler em paz. Depois do ingresso, não consigo ler coisas fora da dissertação sem peso na consciência. Antes pensava em emendar no doutorado. Hoje não. Quero paz mental, espiritual (e acadêmica).

2018 mal começou e estou levemente cansada. Contudo é essa pseudo fadiga que me impulsionará. Haverá qualificação, defesa, copa, eleição e, possivelmente, a prorrogação de um concurso que passei em 2016 e que anseio muito ser nomeada.

2018, seja rápido e indolor, por favor.

Vida acadêmica

O Outono do Patriarca, Gabriel García Márquez

aquelas tardes amenas em que havia feito as pazes com o núncio apostólico e este o visitava sem audiência para tratar de convertê-lo à fé do Cristo enquanto tomavam chocolate com bolachinhas, e ele alegava morto de riso que se Deus é tão macho como o senhor diz diga-lhe que me tire este escaravelho em zumbe no meu ouvido, dizia-lhe, desabotoava os nove botões da braguilha e mostrava-lhe a hérnia descomunal, diga-lhe que desinche esta criatura, dizia-lhe, mas o núncio pastoreava-o com um longo estoicismo, tratava de convencê-lo de que tudo o que é verdade, diga-o quem o disser, provém do Espírito Santo, e ele o acompanhava até a porta com as primeiras luzes, morto de riso como poucas vezes o haviam visto, não gaste pólvora em ximango, padre, dizia-lhe, para que me quer convertido se de qualquer modo faço o que os senhores querem, que porra.

Vida acadêmica

Experiência com o kindle paperwhite

Desde que comprei o e-reader, muitas pessoas perguntaram se estou gostando desse novo suporte para leituras.

Por muito tempo namorei a ideia de comprar um. Pensava, pensava… Já tinha tido experiência de ler ebooks pelo tablet, e não foi uma experiência boa. O fato de esquentar na mão, a iluminação forte que cansa os olhos, a própria formatação dos textos tornava o ato de ler enfadonho. Por muitas vezes, assisti a vídeos de vlogueiros contando suas experiências com o kindle, kobo e pensava “isso não dá para mim”. Contudo, quando a Saraiva lançou o Lev fiquei muito tentada a comprar. Não sei o que houve, mas desde então eu não tirei a ideia de comprar um leitor digital de livros para mim.

Esse mês eu comprei o kindle paperwhite. Os motivos da compra foi por ele ter luz embutida (viajo muito de ônibus, então seria uma mão na roda), ser um dispositivo muito elogiado e o formato mobi ser fácil de baixar. Ele é super leve, cabe na palma da mão. A bateria realmente dura muito, e o ato de ler é menos cansativo do que no próprio livro físico.

O fato dele ser estreitinho e pequeno faz dele meu companheiro inseparável. Ando com ele para cima e para baixo. Sempre que aparece um tempo livro, tiro ele da bolsa e dou uma adiantada na leitura. O problema é que minha preguiça em resenhar não acompanha a mesma disponibilidade em ler.

Algumas informações para leigos em ereader:

  • Ler aquivos .pdf não é legal. A letra fica pequena (você pode aumentar, mas terá que ficar arrastando a tela para terminar de ler as frases). Há o um programa (Calibre) que faz a conversão de arquivos em .pdf para .mobi (ou qualquer outro que você queira), mas das experiências que tive, o texto não ficou legal. Algumas frases ficaram “quebradas”.
  • É possível ler história em quadrinhos – HQ -, mas não será 100% legal. A tela do kindle é monocolor.
  • Bateria dele dura muito por conta que não há gasto energético quando ele está em stand by.
  • Dá para você pressionar uma palavra desconhecida e descobrir seu significado. Além, de também poder fazer isso quando estiver lendo em um idioma diferente.
  • Você pode marcar um trecho, além de fazer um comentário nele. Há opção de também compartilhar o trecho selecionado no facebook ou twitter, desde que o livro tenha sido comprado na loja da Amazon.

P.S. Este post não é patrocinado pela Amazon. X)

 

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Vida acadêmica

Quero desejar aos meus leitores – recorrentes e esporádicos – um ótimo ano!

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Vida acadêmica

Dias das crianças já chegou!

Sempre procuro motivos para que as pessoas me presenteiem com livros. O fato de estar chegando o dia das crianças foi uma boa desculpa para conseguir junto ao papi presentinhos literários. Comprei todos pela Estante Virtual do sebo Armazém do livro usado. Adoro esse sebo por conta do preço e pelo fato de todos os livros que eles vendem ter a fotinha para dar uma conferida na capa. Já é a segunda compra que faço, e sempre encontro títulos maravilhosos por preços bacanérrimos!

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