Autoria feminina · Literatura Brasileira · Poemas soltos

A SERENATA, de Adelia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mãos incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobro

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos

— só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?

                                                                      

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Poemas soltos

Poesias musicalizadas

Gosto de poesia. Gosto de música. Encontrar os dois em algo é maravilhoso. Várias vozes gostei de alguma música, e depois lendo poesia, deparo-me com ela inquisição ao pé do ouvido “Ôpa, eu conheço essa letra de algum lugar”. Na medida que eu encontrar, postarei no blog vídeos de melodias em cima de poesias. Há figuras carimbadas como Fagner, contudo, tentarei sair do lugar comum e, principalmente, dos meus conterrâneos. Todavia, como será o primeiro post sobre o assunto, o inauguro com músicas de Belchior e Fagner, mas com um Skank sulista para agregar todos gostos.

 

Traduzir-se, de Ferreira Gular, musicalizada por Fagner.

Cota zero, de Drummond, musicalizada pelo Belchior

Poema das sete faces, de Drummond, musicalizada por Samuel Rosa

Gostaria que tivesse ficado aquela janelinha do Youtube em cada vídeo postado, porém, aparentemente, ocorreu um bug.

Poemas soltos

Feliz cumpleaños!

Feliz cumpleaños!

Poemas soltos

Poema, de Ney Matogrosso

 

Poemas soltos

Amor, então
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

Paulo Leminski

Literatura Brasileira · Poemas soltos

Memória – Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Literatura Brasileira · Poemas soltos

Amar – Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
(Carlos Drummond de Andrade)