Autoria Negra · Impressões literárias · Literatura Africana

A Última Tragédia, de Abdulai Sila

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Guiné Bissau, pequeno país ao norte da África, foi por um longo tempo colônia portuguesa. Lugar de entreposto para o envio de escravos para o resto mundo, a antiga Guiné Portuguesa teve todas as interferências sociais que outros países que também sofreram o jugo da colonização passaram: imposição de uma nova língua, religião, comportamento, forma de governo entre outras formas de subjugo. Terra de várias etnias, o país era visto através do olhar imperialista como uma massa homogênea de negros selvagens, sem religião, moral e inteligência. Por conta desse estado de atraso, foi necessária a vinda e a fixação de brancos europeus para salvá-los de tamanho atraso. Logicamente a frase anterior é uma ironia, contudo e infelizmente, esse pensamento vigorou por muito tempo e foi ideia motriz que dominou  diversos seres humanos. A extensão desse ideário contaminou até mesmos os nativos, que passaram a se sentir inferiores e realmente necessitados da “salvação” que o branco impunha. Essa tese é desenvolvida no livro Orientalismo (2007), de Edward Said, que será o estudioso precursor dos estudos pós-coloniais.

A narrativa de Abdulai Sila é uma amostra de vários preconceitos e ideias que circulavam e que estabeleciam comportamentos em uma Guiné Bissau antes da independência. A obra de 1994, segunda produção em prosa do escritor, possui três personagens principais: a jovem Ndani, o Régulo Bsun Nanki e Professor (personagem não nomeado). Os três são negros e cada qual se relaciona com a colonização de um modo diferente – de acordo o gênero, classe e escolaridade – contudo, tornam-se semelhantes ao questionarem a autoridade dos colonizadores sobre si.

 A narrativa começa com Ndani, uma moça de Biombo, que é vaticinada por uma espécie de feiticeiro (conhecido no idioma tradicional como djambakus), como portadora de um mau espírito no corpo e que por onde ela andar levará infortúnios. Através dos conselhos de sua madrasta mais nova, Ndani sai em busca de emprego na cidade de Bissau. “Sinhora, quer criado?” é dito insistentemente em várias casas de pessoas brancas, levando inúmeras negativas. Ndani passa a insistir na pergunta na casa de Maria Deolinda, mulher que depois de uma epifania, se entregará ao serviço de missões evangelizadoras afim de “salvar” as almas dos negros de Guiné Bissau, incluindo a de sua criada, que logo terá seu nome mudado para Maria Daniela e entrará no catecismo a fim de receber o batismo e o crisma.

Em um segundo momento, o narrador apresenta a história do Régulo Bsun Nanki que vive em Quinhamel. Ele é uma autoridade tradicional na aldeia, porém deve obediência ao Chefe Cabrita, homem mestiço que é designado por Portugal para tomar de conta da região. Régulo questiona essa autoridade e a condição dos nativos sob o jugo colonizador. Em uma atitude em se equiparar ao Chefe Cabrita, Régulo tem a ideia de se casar com uma moça que seja alfabetizada e que saiba tomar de conta de uma casa igual a uma mulher branca. A futura esposa será Ndani que retornou para Biombo e tem o casório articulado pela antiga patroa depois de ter sido estuprada pelo patrão.

Em um terceiro momento é apresentado o Professor. A personagem não tem seu nome revelado, mas seu passado é contado como um garoto que perdeu o pai depois de  ter questionado a autoridade de um branco e por esse motivo foi morto. Tendo frequentado uma escola católica, obtém instrução e é doutrinado a acreditar na supremacia da cultura europeia, mas quando começa a lecionar, reflete sobre a seleção de conteúdos que precisa ministrar para seus alunos negros, já que tais assuntos pouco têm a ver com a realidade dos meninos guineenses. Foi contratado por Régulo para trabalhar na escola de Quinhamel e para redigir seu testamento. Contudo, apaixona-se e tem relações com Ndani – mesmo ela estando casada – e após a morte de Régulo, vai viver com a amada em Catió, onde, repetindo a atitude do pai, afronta a autoridade de um branco sendo posteriormente preso e tendo um fim indefinido. 

Em meados de 1970, as colônias portuguesas Guiné Portuguesa e Cabo Verde, empreenderam uma luta anticolonial e nacionalista em busca da separação do domínio português. À frente estava Amílcar Cabral que tinha a ideia de unir os dois países tanto na luta anticolonial como em um único país depois da conquista da independência. Contudo, Amílcar foi assassinado em 1973, episódio triste, mas ao mesmo tempo foi um intensificador da luta e, no mesmo ano da morte do idealizador, é proclamada a independência de Guiné Bissau, reconhecida por Portugal só no ano posterior. A paz política no país acontece por breves períodos, pois desde sua emancipação, Guiné Bissau passou por períodos ditatoriais, golpes de Estado, que contribuíram para prejudicar a qualidade de vida dos cidadãos mergulhando o país em uma situação calamitosa.

Sila, ao recuar a narrativa para o período colonial, traça uma gênese da corrupção e dos desmandos que iniciam justamente com a intervenção no território guineense pelos portugueses que de forma arbitrária mandam e desmandam ao seu bel-prazer. Essa opressão se instala reverberando em mestiços e negros, que por terem algum poder delegado pela metrópole, tomam atitudes similares ao dos brancos. Forja-se uma sociedade dicotomizada, baseada na cor da pele e no poder que é outorgado por Portugal. A classe privilegiada é branca, católica e portuguesa. A este grupo é incumbido cargos reguladores na colônia. Deolinda é a personificação dessa classe. Não suporta Guiné Portuguesa, mas toma para si a ideia de que possui uma missão no território “esquecido por Deus”. Enquanto seu marido é policial e anseia por uma promoção, ela se torna uma missionária, ganhando visibilidade dentro da Igreja Católica local e no seio aristocrático da colônia.

Em Orfeu Negro, Sartre diz: “O que esperáveis que acontecesse, quando tirastes a mordaça que tapava estas bocas negras? Que vos entoariam louvores?” (1948, p. 89). Literatura para estes escritores negros é um holofote para denúncias, é o fim do ciclo de silenciamento que os foi imposto por séculos. O que vai ao encontro do que Chinua Achebe escreve “os negros precisam é recuperar o que lhes pertence – sua história – e narrá-la eles mesmos” (2012, p. 66).

Ndani é construída de forma complexa pelo autor e carrega em si diversas manifestações do que é ser um indivíduo alienado. A uniculturalidade imposta pelos portugueses subjuga as culturas que já estavam naquele território antes da chegada dos colonizadores. Não há relação de “senhor” e “escravo”, mas a dicotomia colonial “colonizador” e “colonizado” é tão bárbara quanto a outra. A literatura assume um papel político que ecoa e dá vida aos que ora eram considerados ignorantes e incapazes, e hoje são os que têm muito a dizer.   

Observação: Este texto é composto por excertos de um artigo científico. Devido a extensão, preferi colocar alguns parágrafos. Caso queira ler o artigo completo intitulado “A má sorte da personagem Ndani em A Última Tragédia, de Abdulai Sila”, solicitar nos comentários. 

 

Referências

SAID, E. W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SARTRE, J. P. Orfeu Negro. In: SARTRE, J.P. Reflexões sobre o racismo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1948.

SILA, A. A Última Tragédia. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.

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