Autoria Negra · Impressões literárias · Literatura Brasileira

O personagem do negro fiel em Helena, de Machado de Assis

Machado de Assis é estigmatizado como um autor afrodescendente que não assumiu sua cor de pele nem foi engajado no movimento abolicionista. Muitos intelectuais são responsáveis por perpetuar essa ideia como Mario de Andrade ao dizer que “Machado de Assis não profetizou nada, não combateu nada, não ultrapassou nenhum limite infecundo. Viveu moral e espiritualmente escanchado na burguesice do seu funcionarismo garantido e muito honesto, afastando de si os perigos visíveis” (apud Brookshaw, 1983, p. 20). Ultimamente pesquisas ressoam que Machado tinha sim um engajamento, não tanto evidente e público, mas nas sutilezas, como em poesias, personagens, artigos, no âmbito literário; como no profissional, sendo um servidor do Ministério da Agricultura, no qual tinha por função fazer valer a liberdade dos filhos de negros escravizados que haviam nascido após a lei de 1871, como revela Sidney Chalhoub. Para laurear e tornar inquestionável o Machado de Assis homem do seu tempo e do seu povo mestiço, o professor Eduardo de Assis Duarte publicou o livro Machado de Assis afro-descendente: escritos de um caramujo (2009). O livro é uma antologia com diversos textos, de diferentes gêneros, que provam que o Cosme Velho literariamente posicionou-se contra a terrível condição do povo negro.

          Helena, terceiro romance do escritor, publicado em formato de folhetim no ano de 1876, é considerados por alguns uma obra menor e esquecível do autor. Porém, o professor Eduardo Luz (UFC) é contrário a essa ideia e possui uma tese e livros que refutam essa ideia além de colocar Helena como uma obra importante para as obras subsequentes do autor (arrependo-me muito de não ter feito uma disciplina na pós com o professor Eduardo Luz sobre o livro).

          A romance tem como protagonistas Estácio e Helena. O rapaz é um sujeito, ligado aos livros e que de repente se vê responsável pelo patrimônio paterno depois da morte súbita do patriarca. Ao abrirem o testamento, é divulgado que Estácio possui uma meia irmã fruto do caso extraconjugal do pai. A última vontade do falecido é que a moça chamada Helena vá morar como a família na fazenda. A chegada da moça enche a casa de novos ares, porém fofocas começam a surgir devido os passeios matutinos que a menina faz com seu pajem além de falas truncadas que a menina vez por outra emite.

          Como um típico romance do período romântico, temos um retrato da burguesia em seus costumes e ócios. A pitada de brasilidade está na presença sutil – e em alguns momentos importante – de personagens negros todos na condição de escravos da família de Estácio.

          Logo no início, com a chegada de Helena à casa do falecido pai, é relatado que os escravos a tratam com cautela, visto que Dona Úrsula, tia de Estácio, não está contente com a inserção da bastarda no seio familiar. Aos escravos é delegado um sentindo de lealdade à patroa, que confirma a construção de personagens seguindo o estereótipo de “negro fiel” tão comum nas narrativas. Para Helena é cedido um pajem que a acompanhe em seus passeios, o negro Vicente. Chamou-me a atenção o fato de uma mocinha de 16 anos ser entregue aos cuidados de um homem que, mesmo escravo, poderia ser um perigo a sua inocência. Entra-se, novamente, no que seria o negro fiel no qual não havia a mínima possibilidade de se imaginar que um negro, há tempos na família, um animalzinho de estimação da mais alta estima, pudesse cometer um ato rude contra a sinhazinha.

          Em momentos lemos a servidão em tudo, como retirar a roupa do patrão, trazer um tamborete, fazer um café. Coisas mínimas que os brancos não podiam fazer sem o auxílio do escravo. Mesmo sendo colocado numa hierarquia subumana, havia precauções, como em que em certo momento quando Mendonça, amigo de Estácio, que conversar sobre sua afeição a irmã do amigo, ele espera o escravo terminar de retirar a roupa do patrão e sair do quarto. São pontos contraditórios ao meu ver: ora o negro é um nada, ora ele é ouvidos aguçados que intimidam.

          Há uma passagem no romance em que me peguei pensando sobre a real (ou dualidade) da conotação. Helena e Estácio estão cavalgando e encontram um negro alegremente descascando uma laranja. É um momento epifânico para os personagens, pois utilizam da fisionomia tranquila do homem para ilustrar que mesmo em condição infeliz ainda encontra felicidade em pequenas atitudes, como chupar laranja sossegadamente e andar a pé, que segundo Estácio, o faria experimentar, ao menos por uma hora, a sensação de liberdade (similar ao jogo do contente do romance infanto-juvenil Pollyana).

[…] Vê aquele preto que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que nós, terá de gastar, a pé, mais de uma hora ou quase.

          O preto de quem Estácio falara, estava sentado no capim, descascando uma laranja, enquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. O preto não atendia aos dous cavaleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fruta e deitando os pedaços da casca ao focinho do animal, que fazia apenas um movimento com a cabeça, com o que parecia alegrá-lo infinitamente. Era homem de cerca de quarenta anos; ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapéu que lhe cobria a cabeça, tinha uma cor inverossímil. No entanto, o rosto exprimia a plenitude da satisfação; em todo caso, a serenidade do espírito. (ASSIS, 1997, p. 36-37)

           Será a interferência do pajem Vicente que através do seu depoimento confirmará que Helena é uma jovem virtuosa não ligada a nada de errado como as fofocas sugerem. O negro, através da sua voz, garantirá ao padre Melchior a idoneidade da protagonista. Interessante, é que o padre se confiará no depoimento do escravo a partir da entonação da voz, pois como já era noite, não conseguia discernir as feições negras de Vicente na noite escura.

O romance possui parcas referências à escravidão, mas quando o faz, é possível vislumbrar a forma que a servidão se estruturava. Lógico que Machado não saiu ileso a estereótipos, principalmente no já citado negro fiel, porém é de interesse ler a escravidão na boca da aristocracia, como no colóquio de uma importante figura que começa a dialogar sobre economia e ao nomear elementos de peso para a máquina pública insere a escravidão.

          Helena pode ser uma obra típica do Romantismo terminando de forma maçante e sem muitos pontos altos, todavia se lido com atenção, além do aspecto dos personagens negros abordado, é possível vislumbrar o início de um grande romancista e indícios do que viria a aparecer a posteriori como sua atenção aos olhos femininos e a rixa de amigos pela mesma mulher.

Referências

ASSIS, M. Helena. São Paulo: Globo, 1997.

BROOKSHAW, D. Raça&Cor na literatura brasileira. Trad. Marta Kirst. Porto Alegre: Mercado aberto, 1983.

DUARTE, E. de A. Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo (antologia). 2ª ed. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Pallas/Crisálida, 2009.

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Milton Santos, O paí, ó e Pelorinho: intersecção de afeto e cor

O texto de hoje foge um pouco do que costumo escrever por aqui. Partindo de um ponto, no caso o Pelourinho, associei o objeto a outras mídias e referências: Milton Santos, a peça/filme/série Ó paí, ó e minhas impressões sobre o local. A escrita deste texto coincide com o aniversário de Salvador, a cidade que conquistou meu coração.

Milton Santos é sem sombra de dúvidas o maior geógrafo brasileiro. Lembro que meu primeiro contato com ele foi através do único professor de geografia que tive, que assim como o seu ídolo, também era negro. Uma vez em sala de aula, esse meu professor que tinha um temperamento bem calmo, disse com uma exaltação e um furor que em cinco anos de proximidade eu nunca tinha visto. “Milton Santos, um homem negro e de origem humilde, tornou-se o maior geógrafo do Brasil”. Só anos depois que fui entender a importância de se usar o adjetivo negro na frase. Só muito tempo depois é que fui entender minimamente a importância de Milton Santos.

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Sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Strasbourg em 1958 é intitulada “O Centro da Cidade de Salvador: Estudo de Geografia Urbana”. Tive recentemente o prazer de lê-la e recorrentemente associava a minha experiência fantástica que foi conhecer Salvador em 2017. Indo além, também associei a obra de Márcio Meirelles, A trilogia do Pelô (1995), que depois foi adaptada para os cinemas com o título O paí, ó, posteriormente tornando-se uma minissérie.

 

“A área mais densamente ocupada da Cidade Salvador corresponde grosso modo ao centro, parte mais antiga da cidade, cujo sítio é o que apresenta maiores dificuldade de utilização. […] É uma faixa de dois quilômetros de largura máxima, de mais ou menos seis quilômetros de extensão, acompanhando a Baía de Todos os Santos. O centro da aglomeração corresponde à parte mais larga; ele cresceu dente o primeiro século, mais aumentou ainda mais nitidamente agora.” (SANTOS, 2008, p. 58 – 62)

 

A relação está justamente na questão geográfica. A peça O paí,ó, do Teatro do Olodum, que depois de anos sendo transmitida oralmente, passa pela literarização pelas mãos de Márcio Meirelles, aborda a questão da revitalização do centro de Salvador, atingindo em especial os moradores da região da cidade alta, com ênfase aos do Pelourinho. Em 1958, Milton já observava a situação de marginalidade que a região vivia. Outrora um lugar de pompa, tornou-se um ambiente de cortiços, onde várias famílias pobres moravam em condições muitas vezes insalubres, dividindo espaço com prostituição, usuários de drogas. “Os cortiços são o resultado da degradação progressiva desses velhos casarões e sobrados, construídos no centro da cidade quando essa era parte residencial rica.” (SANTOS, 2008, p. 162). Era um ambiente hostilizando pelas políticas públicas e pela própria sociedade. O geógrafo já indicava a necessidade de se revitalizar o local.

Porém, ao usarmos esse termo “revitalizar” esbarramos numa ótica capitalista, no qual intentar melhorar um local ambicionando torná-lo um local que gere lucros, ou seja, aluguéis, turismos, ofertas de serviços. Os que já moram, muitas vezes, são indenizados ou remanejados para outros locais. A questão que surge é: revitalizar para quem? Para os interesses dos negócios o para os moradores? A gente sabe a resposta.

A peça aborda essa revitalização proposta pelo governo do Estado. Já o filme e a série homônima abordam outras temáticas, como o assassinato de vidas negras, o mercado informal, sincretismo religioso, o racismo estrutural, entre outros.  

Minha experiência com o Pelourinho foi mágica. O local é uma transporte à história. A abertura do evento que eu participei foi na antiga Faculdade de Medicina que fica no Terreiro de Jesus. Como meu conhecimento era pífio, não imaginava que já estava na região histórica. Dei umas voltinhas ao redor da praça, tive meus primeiros impactos com a existência exagerada de igrejas por metro quadrado, mas também tomei noção do assédio de vendedores ambulantes. No outro dia, ao turistar foi que tomei noção do local grandioso, riquíssimo e abarrotado de cultura. Salvador é um local que guardo no coração e que espero em breve voltar tendo à tiracolo pessoas queridas para assim como eu, vislumbrarem-se.    

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Movida por essa paixão por Salvador, fui atrás de assistir o filme e minissérie Ó paí, ó. Familiarizada com questões raciais, pude perceber as inúmeras críticas que os diálogos possuem. O personagem Roque, interpretado nas telas por Lázaro Ramos, personifica Sócrates com suas indagações através da maiêutica. Ele tem uma marca de utilizar frases de impactos, e quando alguém o elogia, ele diz que não é dele, e sim de fulano de tal. É um homem culto, crítico, que possui um trabalho braçal mas se divide pela paixão à música. É de todos meu personagem favorito.

O interessante é que o Teatro do Olodum há tempos encena a peça, o livro do Meirelles desde 1995 está nas livrarias, a minissérie foi encerrada em 2008, e só agora, dos últimos cinco anos para cá, é que as pautas negras estão ganhando uma visibilidade que nunca antes havia sido dada. Toda essa produção foi resultado do Teatro Experimental do Negro da década de 40, que foi interrompido com o exílio de Abdias do Nascimento.

Penso que se a trajetória de conscientização racial, de classe e gênero que Abdias e outros intelectuais e militantes negros estavam traçando não tivessem sido interrompidas, hoje seríamos uma sociedade bem melhor e, com certeza, teríamos mais capacidade para escolher nossos representantes.

 

Referências

MEIRELLES, M.; BANDO DE TEATRO OLODUM. Trilogia do Pelô: essa é nossa praia; Ó Pai Ó; Babai, Pelô. Salvador: FCJA; Copene, Grupo Cultural Olodum, 1995. 

SANTOS, M. O centro da cidade de Salvador: estudo de geografia urbana. 2ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Salvador: Edufba, 2008. 

 

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O Estandarte da Agonia (1982), de Heloneida Studart

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Heloneida foi uma descoberta feita através das menções em artigos do Thomas Bonnici. Este é um professor do Paraná que se debruça sobre autorias femininas e obras literárias pós-coloniais. Foi graças a seus textos que  tive contato com a teoria literária pós-colonial e sua importância nas literaturas africanas. Mas também, foram através dos seus escritos que conheci muitas escritoras brasileiras esquecidas pela historiografia literária, aquelas que você nunca ouviu falar na faculdade de Letras, mas que foram prolíferas em seu fazer literário mesmo em contextos bem adversos, como foi o caso de Heloneida Studart.

A minha veia de pesquisadora sempre me leva a descobrir alguma obra ou escritor “esquecido”. Não consigo deixar passar nomes citados, sem antes ir consultar brevemente na Dona Gugla (termo que ouvi no humorístico Garras das Patrulhas, da TV Diário). Descobri, para minha grata surpresa, que Heloneida é natural de Fortaleza. Pertencente a uma família ilustre cearense, a escritora teve uma vida de encher os olhos a quem almeja fazer algo pela sociedade através da política e da literatura. Fundadora de alguns partidos políticos, foi deputada estadual no Rio de Janeiro e escreveu muito – muito mesmo!

 Até o momento li apenas três livros da autora. O primeiro “Mulher de Cama e Mesa” é de certa forma um manual introdutório ao movimento feminista. No segundo, “O Pardal é um pássaro azul” é um romance em um local indefinido, que supõe ser Fortaleza, onde uma matriarca governa com mãos de ferro sua família, a política e a Igreja Católica. Tem como pano fundo a prisão de um rapaz de maneira bem arbitrária. É visível que o romance é uma alegoria sobre os tempos obscuros da ditadura.

 O estandarte da agonia (1981) também é um romance que aborda a prisão de jovens pela ditadura militar e movimentos de resistências. A protagonista Açucena é uma mulher que cresceu em uma família cheia de personalidades caricatas. A tia que namorou anos e anos e se tornou viúva antes mesmo de casar, a agregada que foi ludibriada por um homem e faz uma romaria a Padre Cícero, e com destaque, uma mãe competitiva, considerada uma mulher muito linda, que sempre cobrou da filha a beleza, a doçura, os parâmetros que ela considera ideais para uma mulher. Açucena cresce nesse ambiente um tanto enlouquecedor até se casar com um engenheiro. Vai morar no Rio de Janeiro, onde terá dois filhos, Luís e Margarida.

Açucena é alucinada pelo filho. Ela possui um relacionamento criticado pelos familiares a sua volta que consideram que não é correto uma mãe ser tão apaixonada pelo filho. É meio Jocasta e Édipo. Há algo de doentio na fixação da mãe no filho. Em um dado momento, Açucena comenta que seu filho é a continuidade do seu primeiro amor. Lá na adolescência, a então adolescente, relaciona-se com um rapaz. Disposta a se entregar sexualmente a ele, vai até sua residência, onde o encontra com outra mulher nos braços. Esse trauma sentimental influencia seu relacionamento com o filho, no qual ela resgata através da relação maternal a entrega do primeiro amor.

A narrativa já inicia-se com o desaparecimento de Luís e tendo Açucena a única preocupada com o paradeiro do rapaz. Ela pressente que algo não está nos conformes. Depois de 24h do sumiço, a mãe vai em busca do seu paradeiro em delegacias, hospitais… e nada. Então, o temor que o jovem tenha sido capturado por forças ligadas à ditadura ganha contundência. A vida de Luís justifica essa suspeita. O rapaz gostava de capoeira e a ensinava para crianças de uma favela, questionava a política e os costumes, possuía apreço pela cultura afro, queria prestar vestibular para História para um dia ser professor, ou seja, era um rapaz que fugia da sua condição de pertencente a uma família de classe social elevada.

Em sua busca pelo filho, a frágil Açucena resgata uma fortaleza há tempos sufocada. Em paralelo, envereda pelo submundo dos porões da tortura ao passo que conhece uma faceta desconhecida do filho. A mulher passa a vivenciar conflitos internos sobre as descobertas feitas e conflitos externos contra homens poderosos pertencentes ao poder de repressão.

É uma narrativa forte, visto que em alguns momentos Heloneida recorre a descrever as estratégias de torturas. Algumas tinham como fim obter informações. Quando o castigo físico não resultava em confissões, utilizava-se pessoas queridas, como bebês (fato que eu desconhecia). Porém, também havia as torturas para o bel-prazer dos torturadores. Há um personagem responsável pelas práticas agressivas que confessa que só conseguia dormir à noite, se no dia ele tivesse torturado um rapaz em específico. A escritora utiliza de fatos reais, como quando ela fala de um frei que sofreu inúmeras torturas e depois se matou por ver seu torturador direto em suas alucinações (alusão ao frei Tito). Suas descrições são tão frias e ao mesmo tempo asquerosas, que temos a sensação de que a escritora possui intimidade com os atos (Heloneida foi presa pelo DOPS).

O romance também possui uma narrativa paralela sobre os costumes de matriz africana que a empregada doméstica, Cota, realiza. Muitas vezes há uma zombaria contra o que a mulher fala, em contramão, sabemos que Luís possuía profunda admiração e bebia muito a resistência do povo negro.

Heloneida pode ser encontrada facilmente em acervos de sebos, como ocorreu comigo, ao encontrar O Estandarte da Agonia, em um sebo ainda autografado pela autora. Seu pano de fundo nunca foi tão atual. 

 

Referências

STUDART, H. O estandarte da agonia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 

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A cidade das mulheres (2002), de Ruth Landes

Nos últimos meses ando me debruçando sobre o movimento negro no Brasil. Percebi que tinha mais conhecimento sobre os grupos de resistência norte-americanos e seus teóricos do que do meu próprio país. Fugindo dessa sempre sina colonial, mirei minha atenção a conhecer mais as estratégias e os movimentos de preservação da cultura afro e pessoas que teorizaram a situação do negro nesse solo que prega a falsa ideia de democracia racial.

O ponto escolhido para o meu primeiro passo em busca do conhecimento sobre meu país foi o Candomblé. A religião trazida pelos negros escravizados que cultua orixás é um símbolo de resistência dos negros que, às escondidas, professavam sua espiritualidade. Então, foi um pulo para tomar conhecimento da obra “A cidade das mulheres”, da norte-americana Ruth Landes, publicado pela primeira vez em 1947.

A socióloga da Universidade de Columbia veio ao Brasil estudar a população negra e fincou estadia em Salvador, lugar que a aconselharam como o melhor reduto para fazer um estudo antropológico sobre os negros. Chegando, logo fez amizade com o jornalista e etnólogo Édison Carneiro que foi seu guia e protetor.

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Édison Carneiro, 1938, foto de Ruth Landes. 

Ruth tão logo admirou-se da religião do oeste da África. Mas o que chamou mais ainda sua atenção, foi a presença feminina de suma importância dentro dos rituais. Através das descrições de Landes conhecemos a sociedade baiana de 1938 onde negros e brancos se relacionavam em uma hierarquia racial tendo muitas vezes a figura no mestiço no meio termo dessa relação. Além da presença feminina abordada, a partir do olhar da socióloga enxergamos o racismo interno que muitos negros tinham contra si, dando preferência a relacionamentos amorosos com homens brancos ou de tez mais clara, mesmo sabendo que seria um relacionamento marginalizado, mas em contrapartida, garantiria rebentos com epiderme clara.

Por parte dessas mulheres negras participantes do culto aos orixás, não havia uma grande importância aos relacionamentos amorosos, e sim, aos filhos, à religião e ao próprio sustento. Este último ponto é um diferencial entre essas mulheres e as demais mulheres de fora do culto. Em 1938 ainda reverbera a noção de que mulheres devem ser exímias donas de casa, silenciosas e submissas aos seus maridos, que impacta Ruth Landes, pois nos EUA as mulheres já votavam e tinham objetivos pessoais a frente de objetivos domésticos, como estudar. Porém, a sociologia encontra essa autonomia feminina que estava acostumada em seu país, nas mulheres do Candomblé que possuem um ofício e uma função dentro da hierarquia da religião. Essas mulheres não tinham perspectiva de ascensão visto que eram negras, algumas analfabetas, moradas de locais longe do centro. Todavia estavam realizadas em suas vidas e muitas vezes a única coisa que faltava eram filhos que elas providenciavam em relacionamentos fortuitos com homens que escolhiam a dedo dentro de uma opção racial e financeira.

Para uma pessoa que como eu tinha apenas uma noção superficial do Candomblé, a obra é uma excelente arcabouço teórico para entender melhor a teologia e o rito. Apesar de ser uma obra da sociologia, a leitura é muito fácil para quem não é área, pois assemelha-se mais a um diário de viagem e percepções pessoais do que a um tratado sociológico. Isso respalda como um texto com marcas da autora, no qual ela deixa perceber seus preconceitos (como exemplo, em muitos momentos ela elogia mestiços com pele mais clara). É por conta disso que a recepção do seu estudo será muito criticada nos Estados Unidos, devido sua forma de pesquisa in loco, por tecer relação de amizade com os analisados e a opção de escrever um texto carregado de subjetivo longe da tão almejada distância do cientista. Sua tese sobre o matriarcado do Candomblé e status igualitários entre homens e mulheres negros, foram altamente refutados ao longo de anos, tanto por sociólogos brasileiros como norte-americanos. 

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Mãe Sabina, 1938, foto de Ruth Landes

A leitura me fez pesquisar sobre pontos em que a socióloga mencionava, como os terreiros, as mães de santos, os orixás. Conheci, dessa forma, a história do Terreiro do Gantois e que ele, diferente dos demais terreiros, a sucessão das mãe de santo é através da genealogia, enquanto outros é através do jogo de búzios. Como é comum nas religiões, no Candomblé também houve dissidências que provocaram a criação de outras vertentes, como  culto do cabloco que possui sincretismo com o candomblé, espiritismo, catolicismo e cultos indígenas.

Orixás foi uma aula a parte. Sempre tive curiosidade para conhecer sobre panteão e através da obra pude assimilar a mitologia e seus poderes sobre os adeptos. O que mais me ajudou mesmo foi um artigo que há ao final do livro intitulado “Culto fetichista no Brasil”, acho que o próprio título já há uma conotação preconceituosa, o que a autora explica que utilizou tais termos utilizando de nomenclaturas recorrentes dos colonizadores, mas é um artigo muito explicitador para uma pessoa leiga. 

Ao final do seu relato, como eu disse, há artigos. No caso são três, incluindo o que já mencionei no parágrafo anterior, porém, de todos, o que achei mais interessando foi o “Matriarcado Cultual e a Homossexualidade Masculina”, no qual Ruth aborda o matriarcado dentro do Candomblé e como os homossexuais que possuem uma feminilidade evidente a utilizam para ocupar espaços dentro dos ritos e terreiros que são apenas destinados as mulheres. Em terreiros tradicionais, como o Gantois, mesmo sendo um homem com traços fortes de feminilidade, não é permitido; mas em outros, muitos homens acabam tornando-se pai de santo e tendo respaldos equiparados às mães de santo.

Infelizmente essa obra está esgotada há anos e minha leitura foi graças a um arquivo em pdf. Ficou cheio de marcações, pois é uma obra muito interessante e cheia de respostas para dúvidas que eu tinha em relação a religião. Foi uma grande descoberta pessoal conhecer melhor a importância de Mãe Menininha do Gantois, babalawo Martiniano, o etnógrafo Édison Carneiro. Quem se interessar pela obra, fica a sugestão de depois que terminar a leitura, olhar o acervo fotográfico que Ruth Landes ofertou a algumas instituições que mostram sua estadia em Salvador e assim conhecemos as faces dos personagens mencionados.    

Referências

ANDRESON, J. L. Ruth Landes e Edison Carneiro: matriarcado e etnografia no candomblés da Bahia (1938-9). Link para o artigo.

LANDES, R. A cidade das mulheres. Trad. Maria Lúcia do Eirado Silva. Revisão e notas de Édison Carneiro. 2ª ed. rev. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002. 

 

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A Última Tragédia, de Abdulai Sila

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Guiné Bissau, pequeno país ao norte da África, foi por um longo tempo colônia portuguesa. Lugar de entreposto para o envio de escravos para o resto mundo, a antiga Guiné Portuguesa teve todas as interferências sociais que outros países que também sofreram o jugo da colonização passaram: imposição de uma nova língua, religião, comportamento, forma de governo entre outras formas de subjugo. Terra de várias etnias, o país era visto através do olhar imperialista como uma massa homogênea de negros selvagens, sem religião, moral e inteligência. Por conta desse estado de atraso, foi necessária a vinda e a fixação de brancos europeus para salvá-los de tamanho atraso. Logicamente a frase anterior é uma ironia, contudo e infelizmente, esse pensamento vigorou por muito tempo e foi ideia motriz que dominou  diversos seres humanos. A extensão desse ideário contaminou até mesmos os nativos, que passaram a se sentir inferiores e realmente necessitados da “salvação” que o branco impunha. Essa tese é desenvolvida no livro Orientalismo (2007), de Edward Said, que será o estudioso precursor dos estudos pós-coloniais.

A narrativa de Abdulai Sila é uma amostra de vários preconceitos e ideias que circulavam e que estabeleciam comportamentos em uma Guiné Bissau antes da independência. A obra de 1994, segunda produção em prosa do escritor, possui três personagens principais: a jovem Ndani, o Régulo Bsun Nanki e Professor (personagem não nomeado). Os três são negros e cada qual se relaciona com a colonização de um modo diferente – de acordo o gênero, classe e escolaridade – contudo, tornam-se semelhantes ao questionarem a autoridade dos colonizadores sobre si.

 A narrativa começa com Ndani, uma moça de Biombo, que é vaticinada por uma espécie de feiticeiro (conhecido no idioma tradicional como djambakus), como portadora de um mau espírito no corpo e que por onde ela andar levará infortúnios. Através dos conselhos de sua madrasta mais nova, Ndani sai em busca de emprego na cidade de Bissau. “Sinhora, quer criado?” é dito insistentemente em várias casas de pessoas brancas, levando inúmeras negativas. Ndani passa a insistir na pergunta na casa de Maria Deolinda, mulher que depois de uma epifania, se entregará ao serviço de missões evangelizadoras afim de “salvar” as almas dos negros de Guiné Bissau, incluindo a de sua criada, que logo terá seu nome mudado para Maria Daniela e entrará no catecismo a fim de receber o batismo e o crisma.

Em um segundo momento, o narrador apresenta a história do Régulo Bsun Nanki que vive em Quinhamel. Ele é uma autoridade tradicional na aldeia, porém deve obediência ao Chefe Cabrita, homem mestiço que é designado por Portugal para tomar de conta da região. Régulo questiona essa autoridade e a condição dos nativos sob o jugo colonizador. Em uma atitude em se equiparar ao Chefe Cabrita, Régulo tem a ideia de se casar com uma moça que seja alfabetizada e que saiba tomar de conta de uma casa igual a uma mulher branca. A futura esposa será Ndani que retornou para Biombo e tem o casório articulado pela antiga patroa depois de ter sido estuprada pelo patrão.

Em um terceiro momento é apresentado o Professor. A personagem não tem seu nome revelado, mas seu passado é contado como um garoto que perdeu o pai depois de  ter questionado a autoridade de um branco e por esse motivo foi morto. Tendo frequentado uma escola católica, obtém instrução e é doutrinado a acreditar na supremacia da cultura europeia, mas quando começa a lecionar, reflete sobre a seleção de conteúdos que precisa ministrar para seus alunos negros, já que tais assuntos pouco têm a ver com a realidade dos meninos guineenses. Foi contratado por Régulo para trabalhar na escola de Quinhamel e para redigir seu testamento. Contudo, apaixona-se e tem relações com Ndani – mesmo ela estando casada – e após a morte de Régulo, vai viver com a amada em Catió, onde, repetindo a atitude do pai, afronta a autoridade de um branco sendo posteriormente preso e tendo um fim indefinido. 

Em meados de 1970, as colônias portuguesas Guiné Portuguesa e Cabo Verde, empreenderam uma luta anticolonial e nacionalista em busca da separação do domínio português. À frente estava Amílcar Cabral que tinha a ideia de unir os dois países tanto na luta anticolonial como em um único país depois da conquista da independência. Contudo, Amílcar foi assassinado em 1973, episódio triste, mas ao mesmo tempo foi um intensificador da luta e, no mesmo ano da morte do idealizador, é proclamada a independência de Guiné Bissau, reconhecida por Portugal só no ano posterior. A paz política no país acontece por breves períodos, pois desde sua emancipação, Guiné Bissau passou por períodos ditatoriais, golpes de Estado, que contribuíram para prejudicar a qualidade de vida dos cidadãos mergulhando o país em uma situação calamitosa.

Sila, ao recuar a narrativa para o período colonial, traça uma gênese da corrupção e dos desmandos que iniciam justamente com a intervenção no território guineense pelos portugueses que de forma arbitrária mandam e desmandam ao seu bel-prazer. Essa opressão se instala reverberando em mestiços e negros, que por terem algum poder delegado pela metrópole, tomam atitudes similares ao dos brancos. Forja-se uma sociedade dicotomizada, baseada na cor da pele e no poder que é outorgado por Portugal. A classe privilegiada é branca, católica e portuguesa. A este grupo é incumbido cargos reguladores na colônia. Deolinda é a personificação dessa classe. Não suporta Guiné Portuguesa, mas toma para si a ideia de que possui uma missão no território “esquecido por Deus”. Enquanto seu marido é policial e anseia por uma promoção, ela se torna uma missionária, ganhando visibilidade dentro da Igreja Católica local e no seio aristocrático da colônia.

Em Orfeu Negro, Sartre diz: “O que esperáveis que acontecesse, quando tirastes a mordaça que tapava estas bocas negras? Que vos entoariam louvores?” (1948, p. 89). Literatura para estes escritores negros é um holofote para denúncias, é o fim do ciclo de silenciamento que os foi imposto por séculos. O que vai ao encontro do que Chinua Achebe escreve “os negros precisam é recuperar o que lhes pertence – sua história – e narrá-la eles mesmos” (2012, p. 66).

Ndani é construída de forma complexa pelo autor e carrega em si diversas manifestações do que é ser um indivíduo alienado. A uniculturalidade imposta pelos portugueses subjuga as culturas que já estavam naquele território antes da chegada dos colonizadores. Não há relação de “senhor” e “escravo”, mas a dicotomia colonial “colonizador” e “colonizado” é tão bárbara quanto a outra. A literatura assume um papel político que ecoa e dá vida aos que ora eram considerados ignorantes e incapazes, e hoje são os que têm muito a dizer.   

Observação: Este texto é composto por excertos de um artigo científico. Devido a extensão, preferi colocar alguns parágrafos. Caso queira ler o artigo completo intitulado “A má sorte da personagem Ndani em A Última Tragédia, de Abdulai Sila”, solicitar nos comentários. 

 

Referências

SAID, E. W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SARTRE, J. P. Orfeu Negro. In: SARTRE, J.P. Reflexões sobre o racismo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1948.

SILA, A. A Última Tragédia. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.

Autoria feminina · Impressões literárias

Oroonoko ou o Escravo Real, de Aphra Behn

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Em nossa literatura nacional, Peri, do livro O Guarani, do cearense José de Alencar, é considerado “o bom selvagem”, termo que ficou famoso através de Jean Jacques Rousseau ao abordar que o homem nasce bom, porém com o tempo ele se corrompe através das relações sociais, “o homem é o lobo do homem”, outra frase famosa do francês.

O bom selvagem aparece de forma inusitada no pequeno romance Oroonoko, publicado em 1688, de uma inglesa que estava há anos luz de seus conterrâneos. A vida de Aphra Behn é envolta de incertezas. Não se sabe com exatidão onde nasceu e como foi sua vida. Ao que pode ser verificado é o fato dela ter sido, por um breve tempo, espiã inglesa na Holanda. Também é verificável o fato dela não ter ricos a patrocinando, os famosos mecenas. É outorgado a ela o título de ser a primeira escritora a viver exclusivamente da venda de suas obras. Mesmo sendo mulher em uma sociedade ainda mais machista do que atualmente, Aphra conquistou fama e riqueza ao ponto de ser enterrada, aos 49 anos, na Abadia de Westminster.

oroonokoEm pleno século XVII, a escritora criou um romance em que os protagonistas são um casal de negros. Em Oroonoko ou o Escravo Real, tem-se a narração em terceira pessoa através do olhar de uma mulher – que muito se especula que seja a própria Behn rememorando o seu tempo em que morou no Suriname –  a trágica história de um príncipe de um distante reino africano que teve sua vida mudada, após ele e seu avô, o rei, disputando o amor da bela Imoinda.

A narradora não poupa elogios a Oroonoko. É descrito como belo, inteligente, leal, valente…  o bom selvagem! É de uma ingenuidade sem igual sendo recorrente ser enganado por mentiras. Sua inocência em não ver a vilania no próximo é justificada pelo fato dele não ter sido imerso em relações calcadas na mentira, na falsidade, na traição, por isso é tão fácil os homens brancos o ludibriarem. Em uma das mentiras, ele é capturado e torna-se escravo em uma fazenda no Suriname. Sua tristeza diminui ao encontrar Imoinda na mesma fazenda. Todavia, a vida do herói é uma sucessão de tristezas e se tem o que possivelmente seja a primeira rebelião de pessoas escravizadas na literatura.

A narrativa cai em clichês como a suposição que a prática da poligamia é comum em todas as nações africanas, da surpresa em narradora conhecer que negros podem ser “civilizados”, que há amor nas relações entre negros, entre outras; e também esbarra em comentários racistas. Contudo, a obra é de um vislumbre sem par justamente por romancear e ter como herói um negro.

Seu rosto não era daquele preto castanho-ferrugem que predomina em sua raça, mas da mais perfeita cor do ébano. Seus olhos causavam espanto e eram muito penetrantes, com o branco da cor da neve, como seus dentes. Seu nariz era romano, levemente elevado, e não achatado, como é típico dos africanos. Sua boca era do mais perfeito desenho, muito longe daquele formato tão comum entre os membros da raça negra, de lábios carnudos e revirados. As proporções e a expressão de seu rosto eram de tal nobreza e de formas tão perfeitas que, a não ser por sua cor, nada poderia haver na natureza de mais belo, de mais agradável ou de mais simpático… (BEHN, 1999, p. 32-33)

Referências

BEHN, A. Oroonoko ou o Escravo Real: uma história verdadeira. Trad. e apresentação Élvio Antônio Funck. Florianópolis: Editora Mulheres, 1999.

Autoria feminina · Autoria Negra · Impressões literárias · Literatura Brasileira

Ponciá Vivêncio, da Conceição Evaristo

 

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Na minha trajetória de leituras de escritores negros brasileiros o nome da Conceição Evaristo sempre foi presente, porém postergava meu primeiro contato com suas narrativas. Então li e me rendi à grandeza da escrita dessa escritora mineira que possui uma trajetória de vida não muito diferente de muitos brasileiros a fora. Nascida em uma favela, desde criança trabalhou para ajudar em casa. Tardiamente entrou no ensino superior, todavia uma vez demarcado o território da academia não o largou mais e hoje é doutora em Literatura.

     511a45eq5JL     O primeiro livro que lida Conceição Evaristo foi Olhos d’Água composto por vários contos em que os protagonistas vivenciam a triste sina de serem brasileiros negros em uma sociedade misógina e racista. Muitos contos mexeram comigo justamente por visualizar vidas que poderiam muito bem ser a da minha vó, de alguma tia, do meu vô, etc.

          Ponciá Vivêncio publicado pela primeira vez em 2003 foi o primeiro romance a venda da autora. Como ela mesmo diz no prefácio da minha edição (Pallas, 2018), o livro foi auto custeado, e que teve sorte em ter seu romance escolhido para diversos vestibulares de universidades mineiras. Conceição diz: “o ato política de escrever vem acrescido do ato político de publicar”, revela-se que a vivência narrativa da autora é calcada em uma militância de vencer barreiras em um mercado literário que dificulta – ainda mais – a publicação de obras de escritoras negras.

          O título da obra é o nome da protagonista do romance. Além disso, trata-se de um bildungsroman, ou seja, aborda o desenvolvimento do protagonista desde a sua infância até a idade madura e o leitor acompanha o desenvolvimento desse personagem através de situações críticas. Não muito comum com personagens femininas, a opção da construção da narrativa nesse modelo de desenvolvimento do personagem já mostra uma ruptura com cânone machista que faz da narração de personagens masculino o centro de diversas obras consideradas de “alta cultura”. Voltando à Ponciá… A menina carrega em si semelhanças com o avô paterno, um homem sem sanidade e sem um  dos braços. A menina pouco conviveu com o avô e surpreendentemente possui caracteres que eram do patriarca: andar com braço para trás, perder o olhar por longo tempo, opção pelo silêncio em excesso.

          A família mora nas terras do antigo patrão do avô, um senhor de terra que repassou para seus antigos escravos o seu nome, Vivêncio. Também repassa pedaços de terras, mas logo em seguida, aproveitando da ingenuidade, as toma novamente passando a falsa ideia para os moradores de que possuem um pedacinho de terra próprio. Percebe-se que o contexto da vida de Ponciá é próximo no período escravagista, sendo seu pai o primeiro da geração do Ventre Livre. Com o decorrer da leitura saberemos que a questão do direito à liberdade será um mote que influencia a personalidade meio senil meio introspectiva do avô da protagonista.

         519j4iD9idL Terezinha Taborda Moreira em seu artigo Silêncio, trauma e escrita literária (2016) analisa o elemento do silenciamento em Ponciá e como ele não pode ser interpretado como um elemento de subalternidade, mas o contrário. A então mulher Ponciá apropria-se do silêncio como resistência a uma vida repleta de perdas afetivas, de miséria e de violência. Diferente da personagem Beatrice, do romance Hibisco Roxo, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que é silenciada pelo patriarcado que na figura do marido reproduz violência doméstica contra a esposa. Ponciá tem consciência do silêncio e opta por ele; Beatrice é amordaçada simbolicamente através de performances do patriarcado.

escrevivencias-capa-1Terezinha diz: “o silêncio é a resposta que a personagem oferece a uma condição de subalternidade que lhe é imposta, a qual é de ordem patriarcal, mas também racial e de classe. No contexto narrativo da obra, é pelo silêncio que a personagem resiste a essa condição” (2016, p. 111). Interessante perceber a subversão que a personagem faz, sendo um elemento a mais de movimentos contra a maré, que inicia-se desde a escritora, que rompe com todos os interditos que são colocando na trajetória de um escritor negro, até a protagonista (e heroína, ora pois) que transpõe obstáculos a sua maneira.

 

Referências

EVARISTO, C. Ponciá Vivêncio. 3ª ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.

MOREIRA, T. T. Silêncio, trauma e escrita literária. Duarte, C.D.; Côrtes, C. Pereira, M.R.A. (org.). Escrevivências: identidade, gênero e violência na obra de Conceição Evaristo. Belo Horizonte: Editora Idea, 2016.