Filmes

Um vento sagrado (2001), direção José Walter Lima

Professor de matemática e latim no Colégio Pedro II, cantor lírico, homem branco, filho de um diplomata e de uma cantora lírica. Essas são as características de um dos maiores Pai de Santo, ou como ele gostava de se intitular – zelador, que o candomblé brasileiro já teve. Agenor Miranda, Pai Agenor, nascido em Luanda, em 1907, veio para o Brasil ainda na tenra idade. Desde a gravidez de sua mãe, seu destino já estava traçado após a profecia de um estranho homem que vaticinou seu destino ao olhar para a barriga de sua mãe. Muito católica, a mulher não quis seguir o conselho do homem, porém depois de uma enfermidade sem causa nem cura, a mãe de Pai Agenor o levou ao terreiro de Mãe Aninha, em Salvador. Assim inicia-se a trajetória no terreiro e onde seus dons serão desenvolvidos.

O documentário acompanha alguns anos do já idoso Pai Agenor, morador há anos no bairro Engenho Velho, no Rio de Janeiro. Sua casa é um lugar de sincretismos: imagens de budas ao lado de ícones católicos. A importância de Agenor é tão grande que coube a ele decidir, através dos seus jogos de búzios, a sucessão de vários terreiros vacantes após a morte da mãe de santo. Um homem muito culto que tornou pai espiritual de diversas pessoas famosas e influentes do Brasil e que nunca cobrava nada por seus serviços.hqdefault

Pai Agenor defendia a não necessidade do sacrifício de animais por conta da tradição ao qual estava ligado no qual as plantas tinham mais importância para as liturgias do que os animais. Isso não é uma atitude vanguardista, mas um posicionamento calcado na linhagem que ele seguia, como argumenta o professor Muniz Sodré. “Todo axé pode ser encontrado nas plantas”.

Não apenas se dedicando ao candomblé, Pai Agenor também era assíduo às missas sendo grande devoto de São Francisco de Assis. Curioso é ele relatando que sempre se encontrava com Cecília Meireles na Igreja, fato este que liga o babalorixá à poesia, uma das suas grandes paixões. Apesar de ter os pés entre várias religiões, Pai Agenor negava o sincretismo religioso entre orixás e santos católicos, atitude similar a de Mãe Stela de Oxóssi.

O documentário pode ser encontrado completo no youtube e é um excelente material para conhecer mais a religião africana e desmistificar estereótipos. 

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Autoria Negra · Filmes · Impressões literárias · Literatura Brasileira · Vida acadêmica

Milton Santos, O paí, ó e Pelorinho: intersecção de afeto e cor

O texto de hoje foge um pouco do que costumo escrever por aqui. Partindo de um ponto, no caso o Pelourinho, associei o objeto a outras mídias e referências: Milton Santos, a peça/filme/série Ó paí, ó e minhas impressões sobre o local. A escrita deste texto coincide com o aniversário de Salvador, a cidade que conquistou meu coração.

Milton Santos é sem sombra de dúvidas o maior geógrafo brasileiro. Lembro que meu primeiro contato com ele foi através do único professor de geografia que tive, que assim como o seu ídolo, também era negro. Uma vez em sala de aula, esse meu professor que tinha um temperamento bem calmo, disse com uma exaltação e um furor que em cinco anos de proximidade eu nunca tinha visto. “Milton Santos, um homem negro e de origem humilde, tornou-se o maior geógrafo do Brasil”. Só anos depois que fui entender a importância de se usar o adjetivo negro na frase. Só muito tempo depois é que fui entender minimamente a importância de Milton Santos.

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Sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Strasbourg em 1958 é intitulada “O Centro da Cidade de Salvador: Estudo de Geografia Urbana”. Tive recentemente o prazer de lê-la e recorrentemente associava a minha experiência fantástica que foi conhecer Salvador em 2017. Indo além, também associei a obra de Márcio Meirelles, A trilogia do Pelô (1995), que depois foi adaptada para os cinemas com o título O paí, ó, posteriormente tornando-se uma minissérie.

 

“A área mais densamente ocupada da Cidade Salvador corresponde grosso modo ao centro, parte mais antiga da cidade, cujo sítio é o que apresenta maiores dificuldade de utilização. […] É uma faixa de dois quilômetros de largura máxima, de mais ou menos seis quilômetros de extensão, acompanhando a Baía de Todos os Santos. O centro da aglomeração corresponde à parte mais larga; ele cresceu dente o primeiro século, mais aumentou ainda mais nitidamente agora.” (SANTOS, 2008, p. 58 – 62)

 

A relação está justamente na questão geográfica. A peça O paí,ó, do Teatro do Olodum, que depois de anos sendo transmitida oralmente, passa pela literarização pelas mãos de Márcio Meirelles, aborda a questão da revitalização do centro de Salvador, atingindo em especial os moradores da região da cidade alta, com ênfase aos do Pelourinho. Em 1958, Milton já observava a situação de marginalidade que a região vivia. Outrora um lugar de pompa, tornou-se um ambiente de cortiços, onde várias famílias pobres moravam em condições muitas vezes insalubres, dividindo espaço com prostituição, usuários de drogas. “Os cortiços são o resultado da degradação progressiva desses velhos casarões e sobrados, construídos no centro da cidade quando essa era parte residencial rica.” (SANTOS, 2008, p. 162). Era um ambiente hostilizando pelas políticas públicas e pela própria sociedade. O geógrafo já indicava a necessidade de se revitalizar o local.

Porém, ao usarmos esse termo “revitalizar” esbarramos numa ótica capitalista, no qual intentar melhorar um local ambicionando torná-lo um local que gere lucros, ou seja, aluguéis, turismos, ofertas de serviços. Os que já moram, muitas vezes, são indenizados ou remanejados para outros locais. A questão que surge é: revitalizar para quem? Para os interesses dos negócios o para os moradores? A gente sabe a resposta.

A peça aborda essa revitalização proposta pelo governo do Estado. Já o filme e a série homônima abordam outras temáticas, como o assassinato de vidas negras, o mercado informal, sincretismo religioso, o racismo estrutural, entre outros.  

Minha experiência com o Pelourinho foi mágica. O local é uma transporte à história. A abertura do evento que eu participei foi na antiga Faculdade de Medicina que fica no Terreiro de Jesus. Como meu conhecimento era pífio, não imaginava que já estava na região histórica. Dei umas voltinhas ao redor da praça, tive meus primeiros impactos com a existência exagerada de igrejas por metro quadrado, mas também tomei noção do assédio de vendedores ambulantes. No outro dia, ao turistar foi que tomei noção do local grandioso, riquíssimo e abarrotado de cultura. Salvador é um local que guardo no coração e que espero em breve voltar tendo à tiracolo pessoas queridas para assim como eu, vislumbrarem-se.    

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Movida por essa paixão por Salvador, fui atrás de assistir o filme e minissérie Ó paí, ó. Familiarizada com questões raciais, pude perceber as inúmeras críticas que os diálogos possuem. O personagem Roque, interpretado nas telas por Lázaro Ramos, personifica Sócrates com suas indagações através da maiêutica. Ele tem uma marca de utilizar frases de impactos, e quando alguém o elogia, ele diz que não é dele, e sim de fulano de tal. É um homem culto, crítico, que possui um trabalho braçal mas se divide pela paixão à música. É de todos meu personagem favorito.

O interessante é que o Teatro do Olodum há tempos encena a peça, o livro do Meirelles desde 1995 está nas livrarias, a minissérie foi encerrada em 2008, e só agora, dos últimos cinco anos para cá, é que as pautas negras estão ganhando uma visibilidade que nunca antes havia sido dada. Toda essa produção foi resultado do Teatro Experimental do Negro da década de 40, que foi interrompido com o exílio de Abdias do Nascimento.

Penso que se a trajetória de conscientização racial, de classe e gênero que Abdias e outros intelectuais e militantes negros estavam traçando não tivessem sido interrompidas, hoje seríamos uma sociedade bem melhor e, com certeza, teríamos mais capacidade para escolher nossos representantes.

 

Referências

MEIRELLES, M.; BANDO DE TEATRO OLODUM. Trilogia do Pelô: essa é nossa praia; Ó Pai Ó; Babai, Pelô. Salvador: FCJA; Copene, Grupo Cultural Olodum, 1995. 

SANTOS, M. O centro da cidade de Salvador: estudo de geografia urbana. 2ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Salvador: Edufba, 2008. 

 

Filmes

Chi-raq, filme do Spike Lee

               132244 Vidas negras importam. Essa é uma frase que infelizmente é ecoada para que a situação do genocídio negro seja percebida como resultado da situação de marginalidade que o racismo estrutural provoca. Desde a chegada das primeiras pessoas escravizadas, suas vidas sempre foram destinadas a subserviência e consideradas sem dignidade. Com a abolição pouca coisa mudou, pois como diz Angela Davis, em uma sociedade sem paz não há liberdade.

O filme Chi-raq (2015), do diretor Spike Lee, aborda a realidade da área mais perigosa de Chicago. O território é tão violento que supera em números as mortes calculadas no solo iraquiano. Inclusive o nome da região faz referência a situação similar a um extado de guerra, já que é uma junção das palavras Chicago e Iraque. O ocorre em Chi-raq é a constante tensão entre gangues (o que no Brasil é mais comum de nomear de facção) que se rivalizam por domínios, culminantes em mortes de elementos integrantes como de pessoas alheias.

            O filme utiliza da obra do ateniense Aristófanes para construir a estrutura da narrativa. O escritor grego criou peças de comédias que mesmo com o intuito de levar os espectadores ao riso, também fazia veladas críticas ao que ocorria em seu tempo. Sua peça mais famosa é Lisístrata, muitas vezes acompanhadas do subtítulo A guerra dos Sexos. O enredo é sobre uma mulher ateniense chamada Lisístrata, que cansada da ausência do marido por conta da Guerra do Peloponeso, decide congregar todas as mulheres dos homens envolvidos na guerra e propor uma tática que o conflito acabe. Passando por cima da rivalidade entre Atenas e Esparta, as mulheres de ambos os lados, juntam-se e resolvem decretar abstinência sexual até que o conflito finde. O ápice da resolução feminina é quando elas se apoderam da Acrópole, símbolo do poder, e se isolam. Os homens à princípio debocham, mas ao longo dos dias de abstinência, começam a sentir os efeitos da falta do contato feminino o que “amolece” os brios masculinos, chegando a tão almejada paz.

            Em Chi-raq a greve feminina iniciará depois que mais uma criança morre por bala perdida. Lisístrata, mulher do líder da gangue dos Spartans, cansada da situação de violência, conhece a história de Leymah Gbowee, uma ativista que seguindo os passos da protagonista ateniense, convence as mulheres da Libéria a não ter relações com seus companheiros em busca do fim da guerra civil que há anos assolava o país. Percebe-se que o filme do Spike Lee não é de todo ficção. Há muitas ocasiões em que a vida real se fará presente ao longo do filme, como a emocionante macha de mães que clamam pela justiça e paz. Lisístrata então, convence as mulheres da região a aderirem ao seu plano.

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    Tal como as mulheres da peça de Aristófanes, as mulheres tomam um símbolo de poder masculino, que no caso do filme é um quartel general. O movimento ganha visibilidade através da mídia o que faz que a greve se espalhe pelo mundo. Angela Davis (2016) em seu artigo “As mulheres negras e o movimento associativo” já revela que mulheres negras têm em sua trajetória de luta o ímpeto de unirem forças, como ocorreu no final do século XIX, ao criarem grupos em prol do fim do linchamento de vidas negras. Ida B. Well, assim como a liderança de Lisístrata, foi “um chamariz para as mulheres negras recrutadas para ingressar no movimento associativo” (2017, p. 137). Ida utilizou de passeatas, jornais, da sua voz para pôr fim as leis racistas. Coincidentemente, Ida atuava em Chicago.   

            O ponto alto é a homilia do Padre Mike, um homem branco com roupas litúrgicas que fazem referência à cultura afro. Em uma igreja com um Jesus negro em destaque, Padre Mike exibe uma arma de fogo. A partir desse objeto ele desenvolve uma linha de argumentação que deflagra como as vidas negras correm risco com o comércio armamentista. Não existem leis suficientes seguras às armas. É de interesse dos grandes fabricantes que essas armas sejam vendidas na clandestinidade e seu destino, em maioria, são as periferias. “Patti morreu por que armas tornaram-se parte do vestuário americano”, diz que dado momento o padre. Com o crescimento da posse de armas, cresce também o encarceramento em massa (que nos EUA é do âmbito de empresas privadas, logo elas têm interesse que mais e mais pessoas sejam presas). O padre completa: “O encarceramento em massa é o novo Jim Crow”; ou seja, é a nova forma de segregação dos negros, de colocá-los em cativeiros.

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            A comoção tanto pela morte da menina Patty como a greve comandada por Lisístrata, faz com que os integrantes de gangues revejam seus atos e reflitam. O namorado de Lisístrata é o mais resistente a uma pacificação. Em uma determinada cena, um ex-integrante de gangue, agora cadeirante, aproxima-se e comenta que deu vida a vida as lutas entre gangues e a única coisa que recebeu em troca foi mijar e cagar sem perceber, alusão a sua paralisia.

            Ao longo do filme há presença de momentos musicais o que faz do filme ser de gêneros múltiplos, oscilando entre o drama, comédia, musical. Há um narrador excêntrico e cheio de rimas interpretado por Samuel L. Jackson e ambientações que o telespectador é transportado para um palco de teatro. O filme tem muitos pontos positivos, todavia ainda tropeça da caracterização das mulheres no qual há uma exploração visual dos seus corpos em cenas de nudez e figurinos.

            Tanto Lisístrada do Spike Lee, como Ida B. Well e outras ativistas negras, tinham por intuito alcançar a paz, logo, a liberdade.

Nossa história como pessoas afro-americanas deveria nos tornar especialmente sensíveis às questões relativas à paz, pois desde a época do tráfico de escravas e escravos da África temos sido submetidas pela classe dominante branca em busca do lucro e poder a agressões características de uma guerra.  (DAVIS, 2017, p. 65)

            big_thumb_lisistrataPara finalizar, indico a leitura da obra Lisístrata, na edição da Editora Hedra com tradução de Ana Maria César Pompeu. Tive o prazer de entrar em contato com Aristófanes através de uma disciplina na pós-graduação da professora Ana Maria intitulada “As mulheres de Aristófanes”. Para completar as honrarias, a professora também esteve na minha banca de qualificação na qual me ofereceu excelentes dicas sobre a redação do texto como em complementações. Fato curioso é que a professora também traduziu a peça para “cearensês” adaptando falas, nomes e situações para o contexto tipicamente dos cearenses. Também tive o privilégio de assistir uma encenação de Lisístrata em um teatro de bonecos utilizando o texto adaptado da professora Ana Maria. Seria redundância dizer que foi divertidíssimo.  

Referências

Davis, A. As mulheres negras e o movimento associativo. In Davis, A. Mulheres, cultura e política. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

Davis, A. A paz também é um assunto de irmãs: mulheres afro-americanas e a campanha contra as armas nucleares. In Davis, A. Mulheres, cultura e política. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2017.

Filmes

Melody, 1963: O amor tem que vencer, uma história de uma garota americana

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Por muito tempo rechacei a cultura americana. Cresci escutando opiniões paternas que os Estados Unidos queria ser o dono do mundo, sempre metendo-se em assuntos que não o cabiam. Lembro-me da época que se discutia muito sobre a ALCA (área de livre comércio na América) e como seria danoso para os países emergentes e ótimo para os EUA. Aquele nacionalismo exacerbado que era comum ver em filmes confirmava a prepotência dessa nação.

Ainda sinto um sentimentozinho contra a terra do Tio Sam, todavia ao começar a enveredar pelos estudos dos movimentos negros descobri uma faceta dos estadunidenses que me agrada. As grandes teóricas negras feministas são de lá – bell hooks, Angela Davis, Alice Walker  –, os grandes exemplos de articulações entre negros também é de lá – Panteras Negras  –, a noção de unidade e de mãos dadas que melhor funcionou foram dos negros dos Estados Unidos. Além disso, sinto muita inveja (confesso) de como eles falam, com grande espaço na mídia, do passado de jugo, do racismo. A sensação que sinto, é que nós brasileiros estamos em anos de atraso em relação a eles em epistemologias e abordagens raciais. Pautas que hoje para nós são recentes (digo em visibilidade, pois aqui no Brasil também houve organizações de pessoas negras), lá já eram discutidas na década de 50.

Meu processo de desconstrução é cotidiano. Em boa parte da minha vida como apreciadora de séries e filmes, eu deixei de lado produções com atores negros. Lembro BR21197que não curtia, porque sempre havia um viés político que eu não entendia: Um Maluco no Pedaço, Todo Mundo Odeia o Chris. Mesmo sendo uma pessoa negra (algo que só tomei consciência tardiamente), eu não entendia o que eles diziam em tom de piada, mas com uma dose de crítica. Meu nível era Sai de Baixo, A Grande Família e olhe lá. Hoje, ao ver algum episódio dessas séries que citei, percebo vários diálogos que outrora foram despercebidos e hoje fazem total sentido (recentemente reassisti ao Um Príncipe em Nova York e fiquei impactadíssima com as críticas ao racismo da sociedade americana que há no filme de 1988). Em outras palavras, eu era uma alienada.

 

Essa introdução enorme foi para chegar ao ponto do episódio que assisti ontem. Melody, 1963: O amor tem que vencer, uma história de uma garota americana, ao que parece faz parte de uma série que retrata garotas americanas de etnias diferentes em anos diversos. Há três episódios na Amazon Prime e o primeiro é justamente com a protagonista negra Melody sendo contextualizado no ano de 1963.

d4731ec8b5bf611a4e6b8f37919a205d--american-girlsMelody é uma menina super criativa, que costura fantasias que dão asas a sua imaginação. Sua família consiste em sua mãe e seu avô paterno. Logo no início do episódio, ao mostrar sua fantasia de astronauta para o avô, o patriarca meio que dá um banho de água fria nos sonhos da menina. Ele mostra a notícia que meninas negras com idade próxima a da Melody foram presas simplesmente por quererem lanchar em uma lanchonete específica. A menina mora em Detroit que fica na parte do norte do país, o que a coloca em um lugar pouco menos perigoso para pessoas negras já que no sul do país do apartheid ainda vigora. Mas mesmo assim, mesmo morando na região norte, o racismo ainda está lá à espreita, nos pequenos olhares, no convívio social, nas relações de trabalho e na falta de oportunidades.

A mãe da Melody é uma mulher viúva que perdeu o marido na guerra. É uma exímia pianista, porém trabalha como costureira em uma fábrica. A carreira interrompida como resultado do racismo é “esfregada” na cara da mulher através do diálogo do avô. Aliás, esses dois personagens, avô e mãe, são sujeitos com perspectivas diferentes da sociedade. O primeiro é pessimista, acredita que a sociedade nunca vai deixar de segregá-los tornando a vida deles para sempre difícil; a mãe já é esperançosa e incuti na filha esse sentimento que um dia ela será capaz de realizar tudo o que sonhou.

A personagem materna me remeteu ao texto À procura dos jardins de nossas mães, da Alice Walker. No texto, a escritora americana critica o texto conhecidíssimo de Virgínia Woolf, Um teto todo seu. O texto da inglesa fala sobre o que é necessário para uma escritora ser capaz de produzir literatura: tempo, dinheiro e um teto todo seu. Alice concorda, mas para uma mulher negra isso não se encaixa. Ela rememora as mães e avós, “as mulas do mundo”, que carregam em seus corpos o peso da escravidão (casamentos arranjados, maternidades seguidas, violências sexuais), mas em algum lugar de suas almas, guardavam sua arte, que às vezes podia se manifestar em coisas simples, como o cuidado com um jardim.

“Você teve um gênio de bisavó que moImagem relacionadarreu sob o chicote de algum capataz branco e depravado? Ou ela foi obrigada a assar biscoitos para um vagabundo preguiçoso de um lugarejo qualquer, quando ela gritava na sua alma para pintar aquarelas de pôr-do-sol, ou a chuva caindo nas pastagens verdes e cheias de paz? Ou o seu corpo alquebrado era forçado a gerar filhos (que as mais das vezes eram vendidos e apartados delas) – oito, dez, quinze, vinte filhos – quando sua única alegria era modelar figuras heroicas de Rebelião, em pedra ou argila? (WALKER, p. 324, 1986)

Melody diante de seguidos episódios de violência contra pessoas negras começa a questionar o porquê que os policiais só batem em negros, o porquê do hino falar é lealdade para todos sendo que os americanos negros são tratados de forma diferente. A outrora garotinha imaginativa dá lugar a uma menina irritada com a sociedade que não a aceita por conta da sua tonalidade de pele. É triste ver seus sonhos interrompidos ao constatar que sua vida será bem mais árdua do que dos colegas brancos da escola.

Entretanto o episódio não é triste como um todo, visto que é uma produção destinada às crianças. É uma excelente produção para iniciar crianças sobre pautas raciais e até para conscientizar adultos de como o racismo se manifesta. A protagonista é cativante e mesmo com pouca idade é capaz de fazer uma minirrevolução.

 

Referências

WALKER, A. À procura dos jardins de nossas mães. WILMORE, G.S.; CONE, J. H. (org.). Teologia Negra. Trad. Euclides Carneiro. São Paulo: Paulinas, 1986.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu.  Trad. Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso. São Paulo: Tordesilhas, 2014.