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Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã

Quero aqui imitar os retóricos da atualidade que se julgam pequenos deuses quando, como a sanguessuga, parecem servir-se da sua língua, e têm por algo maravilhoso entrelaçar, a torto e a direito, num discurso latino, vocábulos gregos que o tornam enigmático. Se não sabe, línguas estrangeiras, tiram de um embolorado alfarrábio quatro ou cinco velhas palavras com as quais ofuscam o leitor. Os que os compreendem, gabam-se de encontrar uma oportunidade que lhes permite comprazer-se de sua erudição; e quanto mais ininteligíveis parecem aos que os não compreendem, tanto mais são admirados.

Os velhos apreciam bastante a companhia das crianças, e estas a dos velhos, pois os deuses gostam de unir os semelhantes.

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As Boas Coisas da Vida, de Rubem Braga

Sim, cachaça faz mal, e quanto mais, pior. Mas foi a cachaça que fez o brasileiro pobre enfrentar a floresta e o mar, varou esse mundo de águas e de terras, construiu essa confusão meio dolorosa, às vezes pitoresca, mas sempre comovente a que hoje chamamos Brasil. É com essa cachaça que ele, através dos séculos, vela seus mortos, esquenta seu corpo, esquece a dureza do patrão e a falseta da mulher. Ela faz parte do seu sistema de sonho e de vida; é como um sangue da terra que ele põe no sangue.

 

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Política e Educação, de Paulo Freire

“A questão da linguagem, no fundo, uma questão de classe, é igualmente outro ponto em que pode emperrar a prática educativa progressista. Um educador progressista que não seja sensível à linguagem popular, que não busque intimidade com o uso de metáforas, das parábolas no meio popular, não pode comunicar-se com os educandos, perde a eficiência, é incompetente. Quando me refiro aqui à sintaxe, à estrutura de pensamento popular, à necessidade que tem o educador progressista de familiarizar-se com ela, não estou sugerindo que ele renuncie à sua, como também à sua prosódia para identificar-se com a popular. Seria falsa esta postura, populista e não progressiva. Não se trata de que o educador passe a dizer “a gente cheguemos”. Trata-se de respeito e da compreensão e por uma linguagem diferente.” (pág. 55)

“Como tentar explicar a miséria, a dor, a fome, a ignorância, a enfermidade crônica, dizendo, cinicamente, que o mundo é assim mesmo; que uns trabalham mais, com competência, por isso têm mais e que é preciso ser pacientes pois um dia as coisas mudam. Há uma imoralidade radical na dominação, na negação do ser humano, na violência sobre ele, que contagia qualquer prática restritiva de sua plenitude e que a torna imoral também.” (pág.92)

“O líder operário, audaz e empreendedor, aguerrido na luta de libertação, mas que trata sua companheira como objeto é tão incoerente quanto a líder feminista branca que menospreza a camponesa negra é tão incoerente quanto o intelectual progressista que, falando a operários, não se esforça para falar com eles.” (pág.95)

 FREIRE, Paulo. Política e educação: ensaios. São Paulo: Cortez, 2000.

 

 

 

 

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Carta a D., de André Gorz.

“É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia.” (pág. 20)

“… admirávamos as acrobacias aéreas das andorinhas no pátio do nosso prédio, e você disse: “Quanta liberdade por tão pouca responsabilidade!.” (pág. 23)

“No final das contas, elas eram uma espécie de jogo, mas nesse jogo você sempre ganhava. Você não precisava das ciências cognitivas para saber que, sem intuições e afetos, não há inteligência, nem sentido.” (pág. 31)

“Estar completamente apaixonado pela primeira vez, ser amado de volta, era aparentemente banal demais, e privado demais, comum demais: não era uma matéria apropriada para me fazer atingir o universal. Um amor naufragado, impossível, isso sim, ao contrário, rende a nobre literatura. Fico à vontade na estética do fracasso e da aniquilação, não na do êxito e da afirmação. Preciso me erguer acima de mim e de você, à nossa custa, à sua custa, por meio de considerações que ultrapassam nossas pessoas singulares.” (pág. 37)

“Uma anotação de Kafka, em seu diário, pode resumir meu estado de espírito na época: “Meu amor por você não ama a si mesmo”. Eu não me amava por amar você.” (pág. 41)

“Nós tínhamos um mundo em comum, do qual percebíamos aspectos diferentes. Essas diferenças eram nossa riqueza.” (pág. 41)

“Não quero mais – segundo a fórmula de Georges Bataille – ‘deixar a existência para mais tarde’. Estou atento à sua presença como estive desde o início, e gostaria de fazê-la sentir isso. Você me deu toda a sua vida e tudo de si; e eu gostaria de poder lhe dar tudo de mim durante o tempo que resta.

Você acabou de fazer 82 anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o meu corpo estreitado contra o meu pode preencher.” (pág. 52)

Carta à D., André Gorz. Cosac Naif, 2014.

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Autoria feminina · citações

Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo

“Como se pode viver de costas voltadas para a família? Somos como peças de dominó. Caindo uma, sou sempre eu a cair, caímos todas.” (pág. 135)

“Aprendera, desde então, que o amor se pode medir, exprimir-se numericamente através de um sistema métrico com medidas próprias e rudimentares. O amor nunca é incondicional ou absoluto. Aumenta e diminui conforme calha. E termina. Adélia cedo se habituou à graduação do amor.” (pág.134)

“Descreio do aborto como forma de emancipação feminina e muitas vezes penso no destino desses embriões e fetos expulsos antes do tempo. Que lhes acontece? Devem ser metidos em grandes sacos de lixos pretos juntamente com rins, massas tumefactas, mucos, quistos, secreções, escarros, ossos, restos de peles. A possibilidade de esses pequenos monstros serem indistintamente incinerados em fornos em altas temperaturas impressiona-me. Faz-me muita confusão. Deixei-me ali estar, de pé, a olhar o coágulo na sanita, sem descarregar o autoclismo.” (pág. 167)

“Descíamos a rua da Madalena em direção à Baixa quando parou a olhar uma varanda de vasos floridos. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, explicou que a morte não o assustava. O que o assustava era a morte depois da morte, o esquecimento dos outros, sofria com a possibilidade de ninguém recordar os seus gestos, o tom da sua voz, os principais traços do seu caráter, sobretudo, as suas opiniões. Contou ainda que o pai morrera novo, e a lembrança da mãe ajeitando as jarras da campa com flores frescas, beijando o nome incrustado na lápide, era a mais bela que guardava da infância.” (pág.170)

REBELO, Ana Cássia. Ana de Amsterdam. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

 

 

 

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Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós

O amor, ao anunciar-se, assustou-me. Invadiu-me de repente, sem pedir licença ou por favor. E naquele tempo se usava pedir desculpas para ser feliz. A felicidade nos era interditada. Toda tristeza prenunciava uma felicidade que não chegava. Dormi e, ao despertar-me, já amava. Acordei-me em saudade. (pág. 25)

A mão do amor roçava meu corpo – mansa como a melancolia – afrouxando-me inteiro. Eu me entregava, sem reservas, com paixão e desmedo. Sumir dentro de meu amor, perder-me em sua respiração, encarnar-me em sua carne, ser o sonho de meu amor, era tudo o que mais pensava. Nem minha mãe, bem longe de mim, adivinharia meu paradeiro. Meu amor me acrescentava mais pecados, mas o padre, no segredo das confissões, perdoava-me. (pág. 28)

O amor sobressaltava em mim. Prosperava sem medo e veio sair pelos olhos, nariz, ouvidos, jamais pelas palavras. Investi, sem medida, no verba amar e me vi mudo. Minha boca não exalava palavras. Beijar era minha espuma, meu mar, meu batismo. Discordava do céu como a suavidade suprema. Quando as bocas se entretinham debaixo do assoalho de porão, o paraíso se anunciava. Pela boca o amor me devorava. Não projetava outro céu. O amor apaziguava minhas águas.  (pág. 53)

 

*Queirós, Bartolomeu Campos de. Vermelho Amargo. São Paulo: Cosac Naif, 2011.

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Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, de Marçal de Aquino

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche – “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” -, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para a razão, apenas para a loucura.

O professor Schianberg escreveu: “A grande desgraça é que as lembranças não bastam para confortar os amantes, Nunca aplacam. Ao contrário: servem só para espiaçar as chagas daqueles que foram condenados à lepra do amor não correspondido”.

*Sem paginação, pois foi lido no kindle.