Autoria feminina · citações

Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo

“Como se pode viver de costas voltadas para a família? Somos como peças de dominó. Caindo uma, sou sempre eu a cair, caímos todas.” (pág. 135)

“Aprendera, desde então, que o amor se pode medir, exprimir-se numericamente através de um sistema métrico com medidas próprias e rudimentares. O amor nunca é incondicional ou absoluto. Aumenta e diminui conforme calha. E termina. Adélia cedo se habituou à graduação do amor.” (pág.134)

“Descreio do aborto como forma de emancipação feminina e muitas vezes penso no destino desses embriões e fetos expulsos antes do tempo. Que lhes acontece? Devem ser metidos em grandes sacos de lixos pretos juntamente com rins, massas tumefactas, mucos, quistos, secreções, escarros, ossos, restos de peles. A possibilidade de esses pequenos monstros serem indistintamente incinerados em fornos em altas temperaturas impressiona-me. Faz-me muita confusão. Deixei-me ali estar, de pé, a olhar o coágulo na sanita, sem descarregar o autoclismo.” (pág. 167)

“Descíamos a rua da Madalena em direção à Baixa quando parou a olhar uma varanda de vasos floridos. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, explicou que a morte não o assustava. O que o assustava era a morte depois da morte, o esquecimento dos outros, sofria com a possibilidade de ninguém recordar os seus gestos, o tom da sua voz, os principais traços do seu caráter, sobretudo, as suas opiniões. Contou ainda que o pai morrera novo, e a lembrança da mãe ajeitando as jarras da campa com flores frescas, beijando o nome incrustado na lápide, era a mais bela que guardava da infância.” (pág.170)

REBELO, Ana Cássia. Ana de Amsterdam. São Paulo: Biblioteca Azul, 2016.

 

 

 

Autoria feminina · citações

Fazes-me falta, de Inês Pedrosa.

Conheci muitas crianças feitas no desespero de uma reconciliação, concebidas in memoriam da felicidade de outrora. Outras marcavam o auge exato da paixão – o momento do esplendor antes da morte. Todos os filhos nascem póstumos de um amor que já não flutua no ar que respiram.

Tinha pressa de recuperar o Tolstoi, o Cervantes e o Proust que não te haviam dado a ler na juventude. Misturava muito, isso sim. Deleuze e Ruth Rendell. Camilo e Duras e os contos de Tchekov e os ensaios de Montaigne. Até – suprema heresia! – Shakespeare e Berthe Bernage.

Todos os dias da minha vida estive contigo – como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti, como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti. Mais delicadas, mais ritmadas, mais claras – menos tu.

Mas queria voltar a estar com ele, entregar-me e vomitá-lo numa vingança florbélica. Ou seja, queria nadar no azul desse mundo paralelo de que só ele parecia ter a chave.

*Sem paginação, pois foi lino do kindle.

 

Autoria feminina · citações

O coração disparado, de Adélia Prado

“Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.”

“A vida rui? A vida rola, mas não cai. A vida é boa.”

“Queria que nossa fé fosse como está escrito: AQUELE QUE CRÊ VIVERÁ PARA SEMPRE.Isto é tão espantoso que me retiro para meditar. Espero que ao leres estejas gozando saúde, felicidade e paz junto aos teus.”

 

 

*Trechos sem páginas,pois foram lidos no kindle.

 

Autoria feminina · Impressões literárias

Inés da minha alma, de Isabel Allende

ines da minha alma

Isabel Allende é uma exímia contadora de histórias. Pude conhecê-la em Paula, uma autobiografia; e em Eva Luna. Gosto do seu estilo literário, e gosto mais ainda o fato dela invocar sempre o seu país – Chile -, em suas obras.

Narrado em primeira pessoa, Inés Soares no início do romance, é um mocinha espanhola magrela sem dotes financeiros nem de beleza. Em compensação é inteligente, boa costureira e cozinheira. Casa com um homem que a ensina tudo o que há de bom na cama, mas que a faz  sofrer por suas traições. O esposo parte para o Novo Mundo em busca de riqueza e, nessa tempo, Inês já não mais o ama – o que torna um alívio a ida do homem. Visto que o local onde vive não há nada para oferecê-la, vai em busca do marido na desculpa de ficar perto dele. Contudo, o que ela quer é novos ares.

Sua vida errante e cheia de aventuras começa ao por os pés no barco que a levará ao Peru. Ao chegar o Novo Mundo descobre que o marido morrera. Assim, envolve-se com Pedro de Valdívia, o homem que virar a ser o conquistador do território do futuro país Chile.

As guerras contra os nativos, com a Coroa, com os costumes sempre serão os motivos de Inés nunca viver em paz. Contudo, ela não quer paz. Ela é guerreira, tem o dom de curar e de encontrar águas subterrâneas. Ou seja, ela é uma peça fundamental para a implementação da nova comunidade de espanhóis no território chileno.

Ao meu ver o livro repete a mesma fórmula do livro Eva Luna, contudo o anterior considero superior. Por ser um romance histórico, pulei algumas partes (e que não fizeram falta no entendimento da história). Muitas passagens descrevem os nativos, considerados selvagens; descrevem a geografia do local, a gana dos espanhóis em achar ouro nesse novo território… E tornou enfadonha a leitura. No mais, Inês é uma mulher forte e inspiradora. Há presença de realismo fantástico, justamento no sincretismo cultural entre espanhóis e indígenas.

Inés foi uma pessoa real que através da autora ganhou características míticas. O que é uma sorte, visto que é imortalizada, enquanto tantos outros heróis tiveram como prêmio o anonimato.

Leia!

 

Autoria feminina · Impressões literárias · Literatura Brasileira

Senhora Dona do Baile, de Zélia Gattai

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Tenho uma grande admiração por Zélia desde que li Anarquistas, graças a Deus!. O anterior a este livro são memórias da escritora. Senhora dona do baile é um excelente livro para os interessados em como funcionava a URSS.

Anarquista, Zélia foi o par perfeito para Jorge Amado. Conheceram e logo se “amarraram” quando o escritor era deputado. Depois veio o exílio na França e Zélia, junto com o primeiro filho do casal – João Jorge – vai ao encontro do marido na Europa. É justamente nessa ida que começa os relatos da narradora.

A descrição do cotidiano dos brasileiros refugiados na França, as viagens aos países comunistas em prol da paz, as situações pitorescas que envolvem ela com Jorge ou com amigos, torna este livro, de 200 e tantas páginas, uma leitura agradável. Tem-se que dar o grande mérito à forma estilística que Zélia se apropria. Eu me percebi como uma neta escutando a avó contando histórias do passado. Por vezes eu recorria ao google para ver o rosto daqueles que Zélia citava.

Através das situações vivenciadas pela autora na Rússia, Ucrânia, Polônia, Checoslováquia, pude entender melhor o pós-guerra, e o exercício do comunismo em uma sociedade. É muito interessante como esses países funcionavam. As escolas era gratuitas; o Estado dava uma bolsa aos universitários poderem se sustentar sem um emprego, contanto que não reprovasse nenhuma disciplina; os aluguéis de imóveis eram taxados em porcentagem fixa a partir do salário do trabalhador; o consumo era intenso, pois o poder aquisitivo da população era alto. Muito interessante!