Vida acadêmica

A devastação da paternagem em A Terceira Vida de Grange Copeland, de Alice Walker

            De uns tempos para cá, cada vez tenho me interessado, e progredindo, em me filiar aos pressupostos do Mulherismo Africana, cunhado pela estadunidense Cleonora Hudson. Essa corrente afrocentrada, não é o antagônico do Feminismo. É como diz a filósofa Kattiúscia Ribeiro “uma nova forma de viver minha essência com meus irmãos de cor”.

            Um dos pontos que mais me atraem no Mulherismo Africana é a importância de pegar na mão dos homens pretos e ajudá-los a (sobre)viver na sociedade racista. A importância de irmandade focada na questão racial e social é para mim mais importante no momento. Isso vem de mim há tempos: só estou bem, se as pessoas que amo, que estão ao meu entorno, também estão bem. Ou seja, vislumbrar uma teoria que tem o social como base, afagou meu coração.

            Entra-se a questão que eu não vejo progresso em, eu mulher preta, ascender socialmente, sabendo que meus irmãos pretos estão sendo exterminados em prisões, mortos em batidas de policiais… Quero o homem preto junto comigo, protegido, amado, PONTENCIALIZADO!

            O primeiro romance de Alice Walker traz o drama familiar por meio das agruras de ser homem em uma sociedade racista e machista. Talvez não seja óbvio para muitos, mas a maior diáspora do mundo, além de destruir famílias, destruiu também as performances de paternar dos homens africanos, sua autoestima, suas tradições, SEU CHÃO!

            Na vida do homem escravizado cabia a ele serviços braçais pesados e o ato de engravidar suas companheiras de cativeiro. Sem afeto, sem ritual, sem benção dos ancestrais, ele fecundava suas irmãs de cor para gerar mais pretinhos para os trabalhos forçados. Percebe-se a animalização desse homem tal como um mulo? Carregar fardos físicos e psicológicos, esconder a dor de não poder amar e ser amado, e como golpe final, privar esse homem de ser pai de uma maneira sem dor, sem traumas, sem um martírio que nem ele bem entende, mas carrega de maneira ancestral (oi, epigenética!).   

            Assim, fragilizado, quebrado da cabeça aos pés, é Grange Copeland. Ele não consegue demonstrar amor ao filho. Não consegue manifestar afeto pela sua continuação na figura Brownfield. O rejeita por meio da omissão, do silêncio, da apatia. Suas fugas são a bebida e os braços de outras mulheres. Um leitor comum compreende a figura de Grange como um homem afundado em dívidas, por isso o comportamento evasivo. Todavia, um olhar mais acostumado com a mazela de ser homem preto, vislumbra a dor de não se saber ser pai, porque muitas vezem nem referência tem.

            Sua condição precária, vista por mim como uma maldição, é herdada pelo filho Brownfield, que tal como um ciclo, repete sua tarefa de pai de maneira desastrada, cruel, beirando o sadismo, porque não soube o que é ter pai. Já homem feito, Brownfield sofre pelo pai não tê-lo amado, não ter cuidado dele. Segue seus rastros em busca do seu amor disfarçada de vingança. Ferir seu pai, já idoso, por meio das netas é dizer “pai, você não as amará, porque você não amou eu que sou seu filho. Ame-me primeiro!”. Tais palavras de outras maneiras são ditas por esse filho machucado. Grange entende, sente, gostaria de voltar a atrás, por já velho compreender o tanto que seu desamor destruiu seu único filho. Mas o tempo é cruel e a única forma que entende como reparação, é proteger suas netas, em especial Ruth.

            O final trágico enlaça o que é previsível desde os primeiros capítulos. Não há uma segunda chance para quem é preto. Talvez, caro leitor, entenda o porquê da maioria das mães solo nesse país serem pretas. Não é por acaso. É a consequência brutal do que a falta de amor por mais de 300 anos infringiu aos nossos homens pretos que vagam por aí em busca de se reconectarem.

 

WALKER, Alice. A terceira vida de Grange Copeland. Trad. Carolina Simmer; Marina Vargas. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 2020.

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