Autoria feminina · Impressões literárias · Literatura Brasileira

O Estandarte da Agonia (1982), de Heloneida Studart

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Heloneida foi uma descoberta feita através das menções em artigos do Thomas Bonnici. Este é um professor do Paraná que se debruça sobre autorias femininas e obras literárias pós-coloniais. Foi graças a seus textos que  tive contato com a teoria literária pós-colonial e sua importância nas literaturas africanas. Mas também, foram através dos seus escritos que conheci muitas escritoras brasileiras esquecidas pela historiografia literária, aquelas que você nunca ouviu falar na faculdade de Letras, mas que foram prolíferas em seu fazer literário mesmo em contextos bem adversos, como foi o caso de Heloneida Studart.

A minha veia de pesquisadora sempre me leva a descobrir alguma obra ou escritor “esquecido”. Não consigo deixar passar nomes citados, sem antes ir consultar brevemente na Dona Gugla (termo que ouvi no humorístico Garras das Patrulhas, da TV Diário). Descobri, para minha grata surpresa, que Heloneida é natural de Fortaleza. Pertencente a uma família ilustre cearense, a escritora teve uma vida de encher os olhos a quem almeja fazer algo pela sociedade através da política e da literatura. Fundadora de alguns partidos políticos, foi deputada estadual no Rio de Janeiro e escreveu muito – muito mesmo!

 Até o momento li apenas três livros da autora. O primeiro “Mulher de Cama e Mesa” é de certa forma um manual introdutório ao movimento feminista. No segundo, “O Pardal é um pássaro azul” é um romance em um local indefinido, que supõe ser Fortaleza, onde uma matriarca governa com mãos de ferro sua família, a política e a Igreja Católica. Tem como pano fundo a prisão de um rapaz de maneira bem arbitrária. É visível que o romance é uma alegoria sobre os tempos obscuros da ditadura.

 O estandarte da agonia (1981) também é um romance que aborda a prisão de jovens pela ditadura militar e movimentos de resistências. A protagonista Açucena é uma mulher que cresceu em uma família cheia de personalidades caricatas. A tia que namorou anos e anos e se tornou viúva antes mesmo de casar, a agregada que foi ludibriada por um homem e faz uma romaria a Padre Cícero, e com destaque, uma mãe competitiva, considerada uma mulher muito linda, que sempre cobrou da filha a beleza, a doçura, os parâmetros que ela considera ideais para uma mulher. Açucena cresce nesse ambiente um tanto enlouquecedor até se casar com um engenheiro. Vai morar no Rio de Janeiro, onde terá dois filhos, Luís e Margarida.

Açucena é alucinada pelo filho. Ela possui um relacionamento criticado pelos familiares a sua volta que consideram que não é correto uma mãe ser tão apaixonada pelo filho. É meio Jocasta e Édipo. Há algo de doentio na fixação da mãe no filho. Em um dado momento, Açucena comenta que seu filho é a continuidade do seu primeiro amor. Lá na adolescência, a então adolescente, relaciona-se com um rapaz. Disposta a se entregar sexualmente a ele, vai até sua residência, onde o encontra com outra mulher nos braços. Esse trauma sentimental influencia seu relacionamento com o filho, no qual ela resgata através da relação maternal a entrega do primeiro amor.

A narrativa já inicia-se com o desaparecimento de Luís e tendo Açucena a única preocupada com o paradeiro do rapaz. Ela pressente que algo não está nos conformes. Depois de 24h do sumiço, a mãe vai em busca do seu paradeiro em delegacias, hospitais… e nada. Então, o temor que o jovem tenha sido capturado por forças ligadas à ditadura ganha contundência. A vida de Luís justifica essa suspeita. O rapaz gostava de capoeira e a ensinava para crianças de uma favela, questionava a política e os costumes, possuía apreço pela cultura afro, queria prestar vestibular para História para um dia ser professor, ou seja, era um rapaz que fugia da sua condição de pertencente a uma família de classe social elevada.

Em sua busca pelo filho, a frágil Açucena resgata uma fortaleza há tempos sufocada. Em paralelo, envereda pelo submundo dos porões da tortura ao passo que conhece uma faceta desconhecida do filho. A mulher passa a vivenciar conflitos internos sobre as descobertas feitas e conflitos externos contra homens poderosos pertencentes ao poder de repressão.

É uma narrativa forte, visto que em alguns momentos Heloneida recorre a descrever as estratégias de torturas. Algumas tinham como fim obter informações. Quando o castigo físico não resultava em confissões, utilizava-se pessoas queridas, como bebês (fato que eu desconhecia). Porém, também havia as torturas para o bel-prazer dos torturadores. Há um personagem responsável pelas práticas agressivas que confessa que só conseguia dormir à noite, se no dia ele tivesse torturado um rapaz em específico. A escritora utiliza de fatos reais, como quando ela fala de um frei que sofreu inúmeras torturas e depois se matou por ver seu torturador direto em suas alucinações (alusão ao frei Tito). Suas descrições são tão frias e ao mesmo tempo asquerosas, que temos a sensação de que a escritora possui intimidade com os atos (Heloneida foi presa pelo DOPS).

O romance também possui uma narrativa paralela sobre os costumes de matriz africana que a empregada doméstica, Cota, realiza. Muitas vezes há uma zombaria contra o que a mulher fala, em contramão, sabemos que Luís possuía profunda admiração e bebia muito a resistência do povo negro.

Heloneida pode ser encontrada facilmente em acervos de sebos, como ocorreu comigo, ao encontrar O Estandarte da Agonia, em um sebo ainda autografado pela autora. Seu pano de fundo nunca foi tão atual. 

 

Referências

STUDART, H. O estandarte da agonia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 

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