Filmes

Chi-raq, filme do Spike Lee

               132244 Vidas negras importam. Essa é uma frase que infelizmente é ecoada para que a situação do genocídio negro seja percebida como resultado da situação de marginalidade que o racismo estrutural provoca. Desde a chegada das primeiras pessoas escravizadas, suas vidas sempre foram destinadas a subserviência e consideradas sem dignidade. Com a abolição pouca coisa mudou, pois como diz Angela Davis, em uma sociedade sem paz não há liberdade.

O filme Chi-raq (2015), do diretor Spike Lee, aborda a realidade da área mais perigosa de Chicago. O território é tão violento que supera em números as mortes calculadas no solo iraquiano. Inclusive o nome da região faz referência a situação similar a um extado de guerra, já que é uma junção das palavras Chicago e Iraque. O ocorre em Chi-raq é a constante tensão entre gangues (o que no Brasil é mais comum de nomear de facção) que se rivalizam por domínios, culminantes em mortes de elementos integrantes como de pessoas alheias.

            O filme utiliza da obra do ateniense Aristófanes para construir a estrutura da narrativa. O escritor grego criou peças de comédias que mesmo com o intuito de levar os espectadores ao riso, também fazia veladas críticas ao que ocorria em seu tempo. Sua peça mais famosa é Lisístrata, muitas vezes acompanhadas do subtítulo A guerra dos Sexos. O enredo é sobre uma mulher ateniense chamada Lisístrata, que cansada da ausência do marido por conta da Guerra do Peloponeso, decide congregar todas as mulheres dos homens envolvidos na guerra e propor uma tática que o conflito acabe. Passando por cima da rivalidade entre Atenas e Esparta, as mulheres de ambos os lados, juntam-se e resolvem decretar abstinência sexual até que o conflito finde. O ápice da resolução feminina é quando elas se apoderam da Acrópole, símbolo do poder, e se isolam. Os homens à princípio debocham, mas ao longo dos dias de abstinência, começam a sentir os efeitos da falta do contato feminino o que “amolece” os brios masculinos, chegando a tão almejada paz.

            Em Chi-raq a greve feminina iniciará depois que mais uma criança morre por bala perdida. Lisístrata, mulher do líder da gangue dos Spartans, cansada da situação de violência, conhece a história de Leymah Gbowee, uma ativista que seguindo os passos da protagonista ateniense, convence as mulheres da Libéria a não ter relações com seus companheiros em busca do fim da guerra civil que há anos assolava o país. Percebe-se que o filme do Spike Lee não é de todo ficção. Há muitas ocasiões em que a vida real se fará presente ao longo do filme, como a emocionante macha de mães que clamam pela justiça e paz. Lisístrata então, convence as mulheres da região a aderirem ao seu plano.

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    Tal como as mulheres da peça de Aristófanes, as mulheres tomam um símbolo de poder masculino, que no caso do filme é um quartel general. O movimento ganha visibilidade através da mídia o que faz que a greve se espalhe pelo mundo. Angela Davis (2016) em seu artigo “As mulheres negras e o movimento associativo” já revela que mulheres negras têm em sua trajetória de luta o ímpeto de unirem forças, como ocorreu no final do século XIX, ao criarem grupos em prol do fim do linchamento de vidas negras. Ida B. Well, assim como a liderança de Lisístrata, foi “um chamariz para as mulheres negras recrutadas para ingressar no movimento associativo” (2017, p. 137). Ida utilizou de passeatas, jornais, da sua voz para pôr fim as leis racistas. Coincidentemente, Ida atuava em Chicago.   

            O ponto alto é a homilia do Padre Mike, um homem branco com roupas litúrgicas que fazem referência à cultura afro. Em uma igreja com um Jesus negro em destaque, Padre Mike exibe uma arma de fogo. A partir desse objeto ele desenvolve uma linha de argumentação que deflagra como as vidas negras correm risco com o comércio armamentista. Não existem leis suficientes seguras às armas. É de interesse dos grandes fabricantes que essas armas sejam vendidas na clandestinidade e seu destino, em maioria, são as periferias. “Patti morreu por que armas tornaram-se parte do vestuário americano”, diz que dado momento o padre. Com o crescimento da posse de armas, cresce também o encarceramento em massa (que nos EUA é do âmbito de empresas privadas, logo elas têm interesse que mais e mais pessoas sejam presas). O padre completa: “O encarceramento em massa é o novo Jim Crow”; ou seja, é a nova forma de segregação dos negros, de colocá-los em cativeiros.

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            A comoção tanto pela morte da menina Patty como a greve comandada por Lisístrata, faz com que os integrantes de gangues revejam seus atos e reflitam. O namorado de Lisístrata é o mais resistente a uma pacificação. Em uma determinada cena, um ex-integrante de gangue, agora cadeirante, aproxima-se e comenta que deu vida a vida as lutas entre gangues e a única coisa que recebeu em troca foi mijar e cagar sem perceber, alusão a sua paralisia.

            Ao longo do filme há presença de momentos musicais o que faz do filme ser de gêneros múltiplos, oscilando entre o drama, comédia, musical. Há um narrador excêntrico e cheio de rimas interpretado por Samuel L. Jackson e ambientações que o telespectador é transportado para um palco de teatro. O filme tem muitos pontos positivos, todavia ainda tropeça da caracterização das mulheres no qual há uma exploração visual dos seus corpos em cenas de nudez e figurinos.

            Tanto Lisístrada do Spike Lee, como Ida B. Well e outras ativistas negras, tinham por intuito alcançar a paz, logo, a liberdade.

Nossa história como pessoas afro-americanas deveria nos tornar especialmente sensíveis às questões relativas à paz, pois desde a época do tráfico de escravas e escravos da África temos sido submetidas pela classe dominante branca em busca do lucro e poder a agressões características de uma guerra.  (DAVIS, 2017, p. 65)

            big_thumb_lisistrataPara finalizar, indico a leitura da obra Lisístrata, na edição da Editora Hedra com tradução de Ana Maria César Pompeu. Tive o prazer de entrar em contato com Aristófanes através de uma disciplina na pós-graduação da professora Ana Maria intitulada “As mulheres de Aristófanes”. Para completar as honrarias, a professora também esteve na minha banca de qualificação na qual me ofereceu excelentes dicas sobre a redação do texto como em complementações. Fato curioso é que a professora também traduziu a peça para “cearensês” adaptando falas, nomes e situações para o contexto tipicamente dos cearenses. Também tive o privilégio de assistir uma encenação de Lisístrata em um teatro de bonecos utilizando o texto adaptado da professora Ana Maria. Seria redundância dizer que foi divertidíssimo.  

Referências

Davis, A. As mulheres negras e o movimento associativo. In Davis, A. Mulheres, cultura e política. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

Davis, A. A paz também é um assunto de irmãs: mulheres afro-americanas e a campanha contra as armas nucleares. In Davis, A. Mulheres, cultura e política. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2017.

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