Filmes

Melody, 1963: O amor tem que vencer, uma história de uma garota americana

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Por muito tempo rechacei a cultura americana. Cresci escutando opiniões paternas que os Estados Unidos queria ser o dono do mundo, sempre metendo-se em assuntos que não o cabiam. Lembro-me da época que se discutia muito sobre a ALCA (área de livre comércio na América) e como seria danoso para os países emergentes e ótimo para os EUA. Aquele nacionalismo exacerbado que era comum ver em filmes confirmava a prepotência dessa nação.

Ainda sinto um sentimentozinho contra a terra do Tio Sam, todavia ao começar a enveredar pelos estudos dos movimentos negros descobri uma faceta dos estadunidenses que me agrada. As grandes teóricas negras feministas são de lá – bell hooks, Angela Davis, Alice Walker  –, os grandes exemplos de articulações entre negros também é de lá – Panteras Negras  –, a noção de unidade e de mãos dadas que melhor funcionou foram dos negros dos Estados Unidos. Além disso, sinto muita inveja (confesso) de como eles falam, com grande espaço na mídia, do passado de jugo, do racismo. A sensação que sinto, é que nós brasileiros estamos em anos de atraso em relação a eles em epistemologias e abordagens raciais. Pautas que hoje para nós são recentes (digo em visibilidade, pois aqui no Brasil também houve organizações de pessoas negras), lá já eram discutidas na década de 50.

Meu processo de desconstrução é cotidiano. Em boa parte da minha vida como apreciadora de séries e filmes, eu deixei de lado produções com atores negros. Lembro BR21197que não curtia, porque sempre havia um viés político que eu não entendia: Um Maluco no Pedaço, Todo Mundo Odeia o Chris. Mesmo sendo uma pessoa negra (algo que só tomei consciência tardiamente), eu não entendia o que eles diziam em tom de piada, mas com uma dose de crítica. Meu nível era Sai de Baixo, A Grande Família e olhe lá. Hoje, ao ver algum episódio dessas séries que citei, percebo vários diálogos que outrora foram despercebidos e hoje fazem total sentido (recentemente reassisti ao Um Príncipe em Nova York e fiquei impactadíssima com as críticas ao racismo da sociedade americana que há no filme de 1988). Em outras palavras, eu era uma alienada.

 

Essa introdução enorme foi para chegar ao ponto do episódio que assisti ontem. Melody, 1963: O amor tem que vencer, uma história de uma garota americana, ao que parece faz parte de uma série que retrata garotas americanas de etnias diferentes em anos diversos. Há três episódios na Amazon Prime e o primeiro é justamente com a protagonista negra Melody sendo contextualizado no ano de 1963.

d4731ec8b5bf611a4e6b8f37919a205d--american-girlsMelody é uma menina super criativa, que costura fantasias que dão asas a sua imaginação. Sua família consiste em sua mãe e seu avô paterno. Logo no início do episódio, ao mostrar sua fantasia de astronauta para o avô, o patriarca meio que dá um banho de água fria nos sonhos da menina. Ele mostra a notícia que meninas negras com idade próxima a da Melody foram presas simplesmente por quererem lanchar em uma lanchonete específica. A menina mora em Detroit que fica na parte do norte do país, o que a coloca em um lugar pouco menos perigoso para pessoas negras já que no sul do país do apartheid ainda vigora. Mas mesmo assim, mesmo morando na região norte, o racismo ainda está lá à espreita, nos pequenos olhares, no convívio social, nas relações de trabalho e na falta de oportunidades.

A mãe da Melody é uma mulher viúva que perdeu o marido na guerra. É uma exímia pianista, porém trabalha como costureira em uma fábrica. A carreira interrompida como resultado do racismo é “esfregada” na cara da mulher através do diálogo do avô. Aliás, esses dois personagens, avô e mãe, são sujeitos com perspectivas diferentes da sociedade. O primeiro é pessimista, acredita que a sociedade nunca vai deixar de segregá-los tornando a vida deles para sempre difícil; a mãe já é esperançosa e incuti na filha esse sentimento que um dia ela será capaz de realizar tudo o que sonhou.

A personagem materna me remeteu ao texto À procura dos jardins de nossas mães, da Alice Walker. No texto, a escritora americana critica o texto conhecidíssimo de Virgínia Woolf, Um teto todo seu. O texto da inglesa fala sobre o que é necessário para uma escritora ser capaz de produzir literatura: tempo, dinheiro e um teto todo seu. Alice concorda, mas para uma mulher negra isso não se encaixa. Ela rememora as mães e avós, “as mulas do mundo”, que carregam em seus corpos o peso da escravidão (casamentos arranjados, maternidades seguidas, violências sexuais), mas em algum lugar de suas almas, guardavam sua arte, que às vezes podia se manifestar em coisas simples, como o cuidado com um jardim.

“Você teve um gênio de bisavó que moImagem relacionadarreu sob o chicote de algum capataz branco e depravado? Ou ela foi obrigada a assar biscoitos para um vagabundo preguiçoso de um lugarejo qualquer, quando ela gritava na sua alma para pintar aquarelas de pôr-do-sol, ou a chuva caindo nas pastagens verdes e cheias de paz? Ou o seu corpo alquebrado era forçado a gerar filhos (que as mais das vezes eram vendidos e apartados delas) – oito, dez, quinze, vinte filhos – quando sua única alegria era modelar figuras heroicas de Rebelião, em pedra ou argila? (WALKER, p. 324, 1986)

Melody diante de seguidos episódios de violência contra pessoas negras começa a questionar o porquê que os policiais só batem em negros, o porquê do hino falar é lealdade para todos sendo que os americanos negros são tratados de forma diferente. A outrora garotinha imaginativa dá lugar a uma menina irritada com a sociedade que não a aceita por conta da sua tonalidade de pele. É triste ver seus sonhos interrompidos ao constatar que sua vida será bem mais árdua do que dos colegas brancos da escola.

Entretanto o episódio não é triste como um todo, visto que é uma produção destinada às crianças. É uma excelente produção para iniciar crianças sobre pautas raciais e até para conscientizar adultos de como o racismo se manifesta. A protagonista é cativante e mesmo com pouca idade é capaz de fazer uma minirrevolução.

 

Referências

WALKER, A. À procura dos jardins de nossas mães. WILMORE, G.S.; CONE, J. H. (org.). Teologia Negra. Trad. Euclides Carneiro. São Paulo: Paulinas, 1986.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu.  Trad. Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

 

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