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Ponciá Vivêncio, da Conceição Evaristo

 

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Na minha trajetória de leituras de escritores negros brasileiros o nome da Conceição Evaristo sempre foi presente, porém postergava meu primeiro contato com suas narrativas. Então li e me rendi à grandeza da escrita dessa escritora mineira que possui uma trajetória de vida não muito diferente de muitos brasileiros a fora. Nascida em uma favela, desde criança trabalhou para ajudar em casa. Tardiamente entrou no ensino superior, todavia uma vez demarcado o território da academia não o largou mais e hoje é doutora em Literatura.

     511a45eq5JL     O primeiro livro que lida Conceição Evaristo foi Olhos d’Água composto por vários contos em que os protagonistas vivenciam a triste sina de serem brasileiros negros em uma sociedade misógina e racista. Muitos contos mexeram comigo justamente por visualizar vidas que poderiam muito bem ser a da minha vó, de alguma tia, do meu vô, etc.

          Ponciá Vivêncio publicado pela primeira vez em 2003 foi o primeiro romance a venda da autora. Como ela mesmo diz no prefácio da minha edição (Pallas, 2018), o livro foi auto custeado, e que teve sorte em ter seu romance escolhido para diversos vestibulares de universidades mineiras. Conceição diz: “o ato política de escrever vem acrescido do ato político de publicar”, revela-se que a vivência narrativa da autora é calcada em uma militância de vencer barreiras em um mercado literário que dificulta – ainda mais – a publicação de obras de escritoras negras.

          O título da obra é o nome da protagonista do romance. Além disso, trata-se de um bildungsroman, ou seja, aborda o desenvolvimento do protagonista desde a sua infância até a idade madura e o leitor acompanha o desenvolvimento desse personagem através de situações críticas. Não muito comum com personagens femininas, a opção da construção da narrativa nesse modelo de desenvolvimento do personagem já mostra uma ruptura com cânone machista que faz da narração de personagens masculino o centro de diversas obras consideradas de “alta cultura”. Voltando à Ponciá… A menina carrega em si semelhanças com o avô paterno, um homem sem sanidade e sem um  dos braços. A menina pouco conviveu com o avô e surpreendentemente possui caracteres que eram do patriarca: andar com braço para trás, perder o olhar por longo tempo, opção pelo silêncio em excesso.

          A família mora nas terras do antigo patrão do avô, um senhor de terra que repassou para seus antigos escravos o seu nome, Vivêncio. Também repassa pedaços de terras, mas logo em seguida, aproveitando da ingenuidade, as toma novamente passando a falsa ideia para os moradores de que possuem um pedacinho de terra próprio. Percebe-se que o contexto da vida de Ponciá é próximo no período escravagista, sendo seu pai o primeiro da geração do Ventre Livre. Com o decorrer da leitura saberemos que a questão do direito à liberdade será um mote que influencia a personalidade meio senil meio introspectiva do avô da protagonista.

         519j4iD9idL Terezinha Taborda Moreira em seu artigo Silêncio, trauma e escrita literária (2016) analisa o elemento do silenciamento em Ponciá e como ele não pode ser interpretado como um elemento de subalternidade, mas o contrário. A então mulher Ponciá apropria-se do silêncio como resistência a uma vida repleta de perdas afetivas, de miséria e de violência. Diferente da personagem Beatrice, do romance Hibisco Roxo, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que é silenciada pelo patriarcado que na figura do marido reproduz violência doméstica contra a esposa. Ponciá tem consciência do silêncio e opta por ele; Beatrice é amordaçada simbolicamente através de performances do patriarcado.

escrevivencias-capa-1Terezinha diz: “o silêncio é a resposta que a personagem oferece a uma condição de subalternidade que lhe é imposta, a qual é de ordem patriarcal, mas também racial e de classe. No contexto narrativo da obra, é pelo silêncio que a personagem resiste a essa condição” (2016, p. 111). Interessante perceber a subversão que a personagem faz, sendo um elemento a mais de movimentos contra a maré, que inicia-se desde a escritora, que rompe com todos os interditos que são colocando na trajetória de um escritor negro, até a protagonista (e heroína, ora pois) que transpõe obstáculos a sua maneira.

 

Referências

EVARISTO, C. Ponciá Vivêncio. 3ª ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.

MOREIRA, T. T. Silêncio, trauma e escrita literária. Duarte, C.D.; Côrtes, C. Pereira, M.R.A. (org.). Escrevivências: identidade, gênero e violência na obra de Conceição Evaristo. Belo Horizonte: Editora Idea, 2016.

 

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