citações

Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós

O amor, ao anunciar-se, assustou-me. Invadiu-me de repente, sem pedir licença ou por favor. E naquele tempo se usava pedir desculpas para ser feliz. A felicidade nos era interditada. Toda tristeza prenunciava uma felicidade que não chegava. Dormi e, ao despertar-me, já amava. Acordei-me em saudade. (pág. 25)

A mão do amor roçava meu corpo – mansa como a melancolia – afrouxando-me inteiro. Eu me entregava, sem reservas, com paixão e desmedo. Sumir dentro de meu amor, perder-me em sua respiração, encarnar-me em sua carne, ser o sonho de meu amor, era tudo o que mais pensava. Nem minha mãe, bem longe de mim, adivinharia meu paradeiro. Meu amor me acrescentava mais pecados, mas o padre, no segredo das confissões, perdoava-me. (pág. 28)

O amor sobressaltava em mim. Prosperava sem medo e veio sair pelos olhos, nariz, ouvidos, jamais pelas palavras. Investi, sem medida, no verba amar e me vi mudo. Minha boca não exalava palavras. Beijar era minha espuma, meu mar, meu batismo. Discordava do céu como a suavidade suprema. Quando as bocas se entretinham debaixo do assoalho de porão, o paraíso se anunciava. Pela boca o amor me devorava. Não projetava outro céu. O amor apaziguava minhas águas.  (pág. 53)

 

*Queirós, Bartolomeu Campos de. Vermelho Amargo. São Paulo: Cosac Naif, 2011.

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