Impressões literárias

Leituras da semana

Post com atraso comandado pelo sétimo pecado capital. Três leituras e uma em andamento.

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Milton Dias foi um cronista cearense nascido no Ipu e criado em Massapê. Uma das frases que mais gosto dele é “Só existe três lugares bonitos no mundo: Paris, Fortaleza e Massapê”. Foi por muito tempo professor de Literatura Francesa na UFC. Suas crônicas são maravilhosas. Alguns dizem que ele é o maior cronista brasileiro, superando Rubem Braga, contanto, o título continua com Rubem justamente pela aquela velha premissa “maior visibilidade que o sul/sudeste possuem” em referência as outras regiões. Milton até morou no Rio de Janeiro, mas passou grande parte da sua vida em Fortaleza e em viagens ao redor do mundo. Pessoa altamente culta, falava várias línguas e sem falar no humor, presente em diversas crônicas. Todavia, há crônicas na qual as lágrimas vem à tona, quando ele relembra sua infância, a escola, os amigos que já faleceram, o pai que morreu quando Milton era criança, os irmãos que os anjos levaram… Tudo regada a muita sensibilidade, um olhar que só os cronistas têm. Há uma passagem com a qual pude me identificar que Milton escreve que o cronista possui um tenacidade para as nuances. Exemplifica que se o cronista precisa de inspiração para escrever, o ônibus é um lugar de variados tipos de pessoas, cada qual falando mais alto seus problemas, sua vida, alguma prosa qualquer, onde o escritor pode escutar e se lambuzar de fazeres humanos.

Transcrevo abaixo um poema de Emily Dickinson que o autor também transcreveu na crônica “Latifúndio”, texto que Milton fala dos terrenos que teve em vida e não soube preservar, mas um foi a exceção: o terreno no cemitério. Interessante é que ele relata a amizade que criou com a sua “vizinha”, e o cavalheirismo de ceder à ela a vaga número 1 e ficar com a 2 (mas confessando que escolheu o 2 mais pela esperança da Morte chamar em ordem numérica).

Morri pela beleza, mas apenas estava

Acomodada em meu túmulo,

Alguém que morrera de verdade

Era depositado no carneiro contíguo.

Perguntou-me baixinho o que me matara:

– A beleza, respondi.

– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,

Somos irmãos. 

E assim, como parentes que uma noite se encontram,

Conversamos de jazigo a jazigo,

Até que o musgo alcançou os nossos lábios

E cobriu os nossos nomes. 

DSCN9158[1]

O livro de Adélia Bezerra de Meneses foi pego emprestado na biblioteca do meu município. Um achado interessante em meio a um acervo precário, mal cuidado, mal catalogado, e  bem carente de obras. Uma grande surpresa foi a forma como a autora analisa os poemas-canções de Chico Buarque. Não me atento tanto ao que o título propõe, que é a figura da mulher nas músicas, mas o que há por trás de algumas músicas, curiosidades e as referências do lugar onde Chico buscou inspiração para compor algumas músicas. Acho que poucos devem saber que a música Quotidiano (“todo dia ela faz tudo sempre igual…”) possui uma versão na qual a mulher é o eu-lírico, Sem Açúcar (“todo dia ele faz diferente, não sei se ele volta da rus, não sei se me traz um presente…”); a tão famosa Olhos nos Olhos, música que mostra a superação de uma mulher refeita de um amor interrompido inesperadamente é a segunda parte da música Atrás da Porta, a qual a mulher implora, rasteja, se agarra aos pelos do amado para que ele não vá embora; e a música Terezinha de Jesus (“Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão…”) considerada folclórica e serviu de inspiração para Terezinha (“o primeiro me chegou como quem vem do florista…”), de Chico Buarque, é na realidade, à vista da psicanálise, uma canção que relata um incesto, entre Terezinha e seu pai, depois com seu irmão, e quando mulher se dá para o homem que ama. Essa interpretação, talvez um desvario da psicanálise, é um tanto que interessante, e se realmente formos analisar ao pé da letra, veremos que faz sentido o incesto que a autora evidencia. 

DSCN9156[1] O livro Metamorfose também foi um empréstimo da biblioteca do município. Era uma das minhas pendências literárias. Já conhecia totalmente o enredo, através de seminários que assisti ao longo do meu curso de Letras, contudo, não me contento em saber da história através dos outros, necessitava lê-lo. Assim fi-lo. Leitura rápida, não menos de uma hora. Se gostei? Sim. Gosto muito do gênero maravilhoso, e saber que a obra é a fontana di Trevi de vários autores que seguem o Realismo Maravilhoso é relembrar a frase Gabo “Se Kafka pode fazer aquilo e se fazer brilhante, eu também o posso”. 

E a leitura em andamento, que cito no primeiro parágrafo, é Histórias Extraordinárias , de Edgar Allan Poe, mas isso já serão opiniões para próxima semana. 

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