Autoria Negra · Filmes · Impressões literárias · Literatura Brasileira · Vida acadêmica

Milton Santos, O paí, ó e Pelorinho: intersecção de afeto e cor

O texto de hoje foge um pouco do que costumo escrever por aqui. Partindo de um ponto, no caso o Pelourinho, associei o objeto a outras mídias e referências: Milton Santos, a peça/filme/série Ó paí, ó e minhas impressões sobre o local. A escrita deste texto coincide com o aniversário de Salvador, a cidade que conquistou meu coração.

Milton Santos é sem sombra de dúvidas o maior geógrafo brasileiro. Lembro que meu primeiro contato com ele foi através do único professor de geografia que tive, que assim como o seu ídolo, também era negro. Uma vez em sala de aula, esse meu professor que tinha um temperamento bem calmo, disse com uma exaltação e um furor que em cinco anos de proximidade eu nunca tinha visto. “Milton Santos, um homem negro e de origem humilde, tornou-se o maior geógrafo do Brasil”. Só anos depois que fui entender a importância de se usar o adjetivo negro na frase. Só muito tempo depois é que fui entender minimamente a importância de Milton Santos.

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Sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Strasbourg em 1958 é intitulada “O Centro da Cidade de Salvador: Estudo de Geografia Urbana”. Tive recentemente o prazer de lê-la e recorrentemente associava a minha experiência fantástica que foi conhecer Salvador em 2017. Indo além, também associei a obra de Márcio Meirelles, A trilogia do Pelô (1995), que depois foi adaptada para os cinemas com o título O paí, ó, posteriormente tornando-se uma minissérie.

 

“A área mais densamente ocupada da Cidade Salvador corresponde grosso modo ao centro, parte mais antiga da cidade, cujo sítio é o que apresenta maiores dificuldade de utilização. […] É uma faixa de dois quilômetros de largura máxima, de mais ou menos seis quilômetros de extensão, acompanhando a Baía de Todos os Santos. O centro da aglomeração corresponde à parte mais larga; ele cresceu dente o primeiro século, mais aumentou ainda mais nitidamente agora.” (SANTOS, 2008, p. 58 – 62)

 

A relação está justamente na questão geográfica. A peça O paí,ó, do Teatro do Olodum, que depois de anos sendo transmitida oralmente, passa pela literarização pelas mãos de Márcio Meirelles, aborda a questão da revitalização do centro de Salvador, atingindo em especial os moradores da região da cidade alta, com ênfase aos do Pelourinho. Em 1958, Milton já observava a situação de marginalidade que a região vivia. Outrora um lugar de pompa, tornou-se um ambiente de cortiços, onde várias famílias pobres moravam em condições muitas vezes insalubres, dividindo espaço com prostituição, usuários de drogas. “Os cortiços são o resultado da degradação progressiva desses velhos casarões e sobrados, construídos no centro da cidade quando essa era parte residencial rica.” (SANTOS, 2008, p. 162). Era um ambiente hostilizando pelas políticas públicas e pela própria sociedade. O geógrafo já indicava a necessidade de se revitalizar o local.

Porém, ao usarmos esse termo “revitalizar” esbarramos numa ótica capitalista, no qual intentar melhorar um local ambicionando torná-lo um local que gere lucros, ou seja, aluguéis, turismos, ofertas de serviços. Os que já moram, muitas vezes, são indenizados ou remanejados para outros locais. A questão que surge é: revitalizar para quem? Para os interesses dos negócios o para os moradores? A gente sabe a resposta.

A peça aborda essa revitalização proposta pelo governo do Estado. Já o filme e a série homônima abordam outras temáticas, como o assassinato de vidas negras, o mercado informal, sincretismo religioso, o racismo estrutural, entre outros.  

Minha experiência com o Pelourinho foi mágica. O local é uma transporte à história. A abertura do evento que eu participei foi na antiga Faculdade de Medicina que fica no Terreiro de Jesus. Como meu conhecimento era pífio, não imaginava que já estava na região histórica. Dei umas voltinhas ao redor da praça, tive meus primeiros impactos com a existência exagerada de igrejas por metro quadrado, mas também tomei noção do assédio de vendedores ambulantes. No outro dia, ao turistar foi que tomei noção do local grandioso, riquíssimo e abarrotado de cultura. Salvador é um local que guardo no coração e que espero em breve voltar tendo à tiracolo pessoas queridas para assim como eu, vislumbrarem-se.    

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Movida por essa paixão por Salvador, fui atrás de assistir o filme e minissérie Ó paí, ó. Familiarizada com questões raciais, pude perceber as inúmeras críticas que os diálogos possuem. O personagem Roque, interpretado nas telas por Lázaro Ramos, personifica Sócrates com suas indagações através da maiêutica. Ele tem uma marca de utilizar frases de impactos, e quando alguém o elogia, ele diz que não é dele, e sim de fulano de tal. É um homem culto, crítico, que possui um trabalho braçal mas se divide pela paixão à música. É de todos meu personagem favorito.

O interessante é que o Teatro do Olodum há tempos encena a peça, o livro do Meirelles desde 1995 está nas livrarias, a minissérie foi encerrada em 2008, e só agora, dos últimos cinco anos para cá, é que as pautas negras estão ganhando uma visibilidade que nunca antes havia sido dada. Toda essa produção foi resultado do Teatro Experimental do Negro da década de 40, que foi interrompido com o exílio de Abdias do Nascimento.

Penso que se a trajetória de conscientização racial, de classe e gênero que Abdias e outros intelectuais e militantes negros estavam traçando não tivessem sido interrompidas, hoje seríamos uma sociedade bem melhor e, com certeza, teríamos mais capacidade para escolher nossos representantes.

 

Referências

MEIRELLES, M.; BANDO DE TEATRO OLODUM. Trilogia do Pelô: essa é nossa praia; Ó Pai Ó; Babai, Pelô. Salvador: FCJA; Copene, Grupo Cultural Olodum, 1995. 

SANTOS, M. O centro da cidade de Salvador: estudo de geografia urbana. 2ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Salvador: Edufba, 2008. 

 

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O Estandarte da Agonia (1982), de Heloneida Studart

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Heloneida foi uma descoberta feita através das menções em artigos do Thomas Bonnici. Este é um professor do Paraná que se debruça sobre autorias femininas e obras literárias pós-coloniais. Foi graças a seus textos que  tive contato com a teoria literária pós-colonial e sua importância nas literaturas africanas. Mas também, foram através dos seus escritos que conheci muitas escritoras brasileiras esquecidas pela historiografia literária, aquelas que você nunca ouviu falar na faculdade de Letras, mas que foram prolíferas em seu fazer literário mesmo em contextos bem adversos, como foi o caso de Heloneida Studart.

A minha veia de pesquisadora sempre me leva a descobrir alguma obra ou escritor “esquecido”. Não consigo deixar passar nomes citados, sem antes ir consultar brevemente na Dona Gugla (termo que ouvi no humorístico Garras das Patrulhas, da TV Diário). Descobri, para minha grata surpresa, que Heloneida é natural de Fortaleza. Pertencente a uma família ilustre cearense, a escritora teve uma vida de encher os olhos a quem almeja fazer algo pela sociedade através da política e da literatura. Fundadora de alguns partidos políticos, foi deputada estadual no Rio de Janeiro e escreveu muito – muito mesmo!

 Até o momento li apenas três livros da autora. O primeiro “Mulher de Cama e Mesa” é de certa forma um manual introdutório ao movimento feminista. No segundo, “O Pardal é um pássaro azul” é um romance em um local indefinido, que supõe ser Fortaleza, onde uma matriarca governa com mãos de ferro sua família, a política e a Igreja Católica. Tem como pano fundo a prisão de um rapaz de maneira bem arbitrária. É visível que o romance é uma alegoria sobre os tempos obscuros da ditadura.

 O estandarte da agonia (1981) também é um romance que aborda a prisão de jovens pela ditadura militar e movimentos de resistências. A protagonista Açucena é uma mulher que cresceu em uma família cheia de personalidades caricatas. A tia que namorou anos e anos e se tornou viúva antes mesmo de casar, a agregada que foi ludibriada por um homem e faz uma romaria a Padre Cícero, e com destaque, uma mãe competitiva, considerada uma mulher muito linda, que sempre cobrou da filha a beleza, a doçura, os parâmetros que ela considera ideais para uma mulher. Açucena cresce nesse ambiente um tanto enlouquecedor até se casar com um engenheiro. Vai morar no Rio de Janeiro, onde terá dois filhos, Luís e Margarida.

Açucena é alucinada pelo filho. Ela possui um relacionamento criticado pelos familiares a sua volta que consideram que não é correto uma mãe ser tão apaixonada pelo filho. É meio Jocasta e Édipo. Há algo de doentio na fixação da mãe no filho. Em um dado momento, Açucena comenta que seu filho é a continuidade do seu primeiro amor. Lá na adolescência, a então adolescente, relaciona-se com um rapaz. Disposta a se entregar sexualmente a ele, vai até sua residência, onde o encontra com outra mulher nos braços. Esse trauma sentimental influencia seu relacionamento com o filho, no qual ela resgata através da relação maternal a entrega do primeiro amor.

A narrativa já inicia-se com o desaparecimento de Luís e tendo Açucena a única preocupada com o paradeiro do rapaz. Ela pressente que algo não está nos conformes. Depois de 24h do sumiço, a mãe vai em busca do seu paradeiro em delegacias, hospitais… e nada. Então, o temor que o jovem tenha sido capturado por forças ligadas à ditadura ganha contundência. A vida de Luís justifica essa suspeita. O rapaz gostava de capoeira e a ensinava para crianças de uma favela, questionava a política e os costumes, possuía apreço pela cultura afro, queria prestar vestibular para História para um dia ser professor, ou seja, era um rapaz que fugia da sua condição de pertencente a uma família de classe social elevada.

Em sua busca pelo filho, a frágil Açucena resgata uma fortaleza há tempos sufocada. Em paralelo, envereda pelo submundo dos porões da tortura ao passo que conhece uma faceta desconhecida do filho. A mulher passa a vivenciar conflitos internos sobre as descobertas feitas e conflitos externos contra homens poderosos pertencentes ao poder de repressão.

É uma narrativa forte, visto que em alguns momentos Heloneida recorre a descrever as estratégias de torturas. Algumas tinham como fim obter informações. Quando o castigo físico não resultava em confissões, utilizava-se pessoas queridas, como bebês (fato que eu desconhecia). Porém, também havia as torturas para o bel-prazer dos torturadores. Há um personagem responsável pelas práticas agressivas que confessa que só conseguia dormir à noite, se no dia ele tivesse torturado um rapaz em específico. A escritora utiliza de fatos reais, como quando ela fala de um frei que sofreu inúmeras torturas e depois se matou por ver seu torturador direto em suas alucinações (alusão ao frei Tito). Suas descrições são tão frias e ao mesmo tempo asquerosas, que temos a sensação de que a escritora possui intimidade com os atos (Heloneida foi presa pelo DOPS).

O romance também possui uma narrativa paralela sobre os costumes de matriz africana que a empregada doméstica, Cota, realiza. Muitas vezes há uma zombaria contra o que a mulher fala, em contramão, sabemos que Luís possuía profunda admiração e bebia muito a resistência do povo negro.

Heloneida pode ser encontrada facilmente em acervos de sebos, como ocorreu comigo, ao encontrar O Estandarte da Agonia, em um sebo ainda autografado pela autora. Seu pano de fundo nunca foi tão atual. 

 

Referências

STUDART, H. O estandarte da agonia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 

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A cidade das mulheres (2002), de Ruth Landes

Nos últimos meses ando me debruçando sobre o movimento negro no Brasil. Percebi que tinha mais conhecimento sobre os grupos de resistência norte-americanos e seus teóricos do que do meu próprio país. Fugindo dessa sempre sina colonial, mirei minha atenção a conhecer mais as estratégias e os movimentos de preservação da cultura afro e pessoas que teorizaram a situação do negro nesse solo que prega a falsa ideia de democracia racial.

O ponto escolhido para o meu primeiro passo em busca do conhecimento sobre meu país foi o Candomblé. A religião trazida pelos negros escravizados que cultua orixás é um símbolo de resistência dos negros que, às escondidas, professavam sua espiritualidade. Então, foi um pulo para tomar conhecimento da obra “A cidade das mulheres”, da norte-americana Ruth Landes, publicado pela primeira vez em 1947.

A socióloga da Universidade de Columbia veio ao Brasil estudar a população negra e fincou estadia em Salvador, lugar que a aconselharam como o melhor reduto para fazer um estudo antropológico sobre os negros. Chegando, logo fez amizade com o jornalista e etnólogo Édison Carneiro que foi seu guia e protetor.

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Édison Carneiro, 1938, foto de Ruth Landes. 

Ruth tão logo admirou-se da religião do oeste da África. Mas o que chamou mais ainda sua atenção, foi a presença feminina de suma importância dentro dos rituais. Através das descrições de Landes conhecemos a sociedade baiana de 1938 onde negros e brancos se relacionavam em uma hierarquia racial tendo muitas vezes a figura no mestiço no meio termo dessa relação. Além da presença feminina abordada, a partir do olhar da socióloga enxergamos o racismo interno que muitos negros tinham contra si, dando preferência a relacionamentos amorosos com homens brancos ou de tez mais clara, mesmo sabendo que seria um relacionamento marginalizado, mas em contrapartida, garantiria rebentos com epiderme clara.

Por parte dessas mulheres negras participantes do culto aos orixás, não havia uma grande importância aos relacionamentos amorosos, e sim, aos filhos, à religião e ao próprio sustento. Este último ponto é um diferencial entre essas mulheres e as demais mulheres de fora do culto. Em 1938 ainda reverbera a noção de que mulheres devem ser exímias donas de casa, silenciosas e submissas aos seus maridos, que impacta Ruth Landes, pois nos EUA as mulheres já votavam e tinham objetivos pessoais a frente de objetivos domésticos, como estudar. Porém, a sociologia encontra essa autonomia feminina que estava acostumada em seu país, nas mulheres do Candomblé que possuem um ofício e uma função dentro da hierarquia da religião. Essas mulheres não tinham perspectiva de ascensão visto que eram negras, algumas analfabetas, moradas de locais longe do centro. Todavia estavam realizadas em suas vidas e muitas vezes a única coisa que faltava eram filhos que elas providenciavam em relacionamentos fortuitos com homens que escolhiam a dedo dentro de uma opção racial e financeira.

Para uma pessoa que como eu tinha apenas uma noção superficial do Candomblé, a obra é uma excelente arcabouço teórico para entender melhor a teologia e o rito. Apesar de ser uma obra da sociologia, a leitura é muito fácil para quem não é área, pois assemelha-se mais a um diário de viagem e percepções pessoais do que a um tratado sociológico. Isso respalda como um texto com marcas da autora, no qual ela deixa perceber seus preconceitos (como exemplo, em muitos momentos ela elogia mestiços com pele mais clara). É por conta disso que a recepção do seu estudo será muito criticada nos Estados Unidos, devido sua forma de pesquisa in loco, por tecer relação de amizade com os analisados e a opção de escrever um texto carregado de subjetivo longe da tão almejada distância do cientista. Sua tese sobre o matriarcado do Candomblé e status igualitários entre homens e mulheres negros, foram altamente refutados ao longo de anos, tanto por sociólogos brasileiros como norte-americanos. 

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Mãe Sabina, 1938, foto de Ruth Landes

A leitura me fez pesquisar sobre pontos em que a socióloga mencionava, como os terreiros, as mães de santos, os orixás. Conheci, dessa forma, a história do Terreiro do Gantois e que ele, diferente dos demais terreiros, a sucessão das mãe de santo é através da genealogia, enquanto outros é através do jogo de búzios. Como é comum nas religiões, no Candomblé também houve dissidências que provocaram a criação de outras vertentes, como  culto do cabloco que possui sincretismo com o candomblé, espiritismo, catolicismo e cultos indígenas.

Orixás foi uma aula a parte. Sempre tive curiosidade para conhecer sobre panteão e através da obra pude assimilar a mitologia e seus poderes sobre os adeptos. O que mais me ajudou mesmo foi um artigo que há ao final do livro intitulado “Culto fetichista no Brasil”, acho que o próprio título já há uma conotação preconceituosa, o que a autora explica que utilizou tais termos utilizando de nomenclaturas recorrentes dos colonizadores, mas é um artigo muito explicitador para uma pessoa leiga. 

Ao final do seu relato, como eu disse, há artigos. No caso são três, incluindo o que já mencionei no parágrafo anterior, porém, de todos, o que achei mais interessando foi o “Matriarcado Cultual e a Homossexualidade Masculina”, no qual Ruth aborda o matriarcado dentro do Candomblé e como os homossexuais que possuem uma feminilidade evidente a utilizam para ocupar espaços dentro dos ritos e terreiros que são apenas destinados as mulheres. Em terreiros tradicionais, como o Gantois, mesmo sendo um homem com traços fortes de feminilidade, não é permitido; mas em outros, muitos homens acabam tornando-se pai de santo e tendo respaldos equiparados às mães de santo.

Infelizmente essa obra está esgotada há anos e minha leitura foi graças a um arquivo em pdf. Ficou cheio de marcações, pois é uma obra muito interessante e cheia de respostas para dúvidas que eu tinha em relação a religião. Foi uma grande descoberta pessoal conhecer melhor a importância de Mãe Menininha do Gantois, babalawo Martiniano, o etnógrafo Édison Carneiro. Quem se interessar pela obra, fica a sugestão de depois que terminar a leitura, olhar o acervo fotográfico que Ruth Landes ofertou a algumas instituições que mostram sua estadia em Salvador e assim conhecemos as faces dos personagens mencionados.    

Referências

ANDRESON, J. L. Ruth Landes e Edison Carneiro: matriarcado e etnografia no candomblés da Bahia (1938-9). Link para o artigo.

LANDES, R. A cidade das mulheres. Trad. Maria Lúcia do Eirado Silva. Revisão e notas de Édison Carneiro. 2ª ed. rev. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002. 

 

Autoria Negra · Impressões literárias · Literatura Africana

A Última Tragédia, de Abdulai Sila

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Guiné Bissau, pequeno país ao norte da África, foi por um longo tempo colônia portuguesa. Lugar de entreposto para o envio de escravos para o resto mundo, a antiga Guiné Portuguesa teve todas as interferências sociais que outros países que também sofreram o jugo da colonização passaram: imposição de uma nova língua, religião, comportamento, forma de governo entre outras formas de subjugo. Terra de várias etnias, o país era visto através do olhar imperialista como uma massa homogênea de negros selvagens, sem religião, moral e inteligência. Por conta desse estado de atraso, foi necessária a vinda e a fixação de brancos europeus para salvá-los de tamanho atraso. Logicamente a frase anterior é uma ironia, contudo e infelizmente, esse pensamento vigorou por muito tempo e foi ideia motriz que dominou  diversos seres humanos. A extensão desse ideário contaminou até mesmos os nativos, que passaram a se sentir inferiores e realmente necessitados da “salvação” que o branco impunha. Essa tese é desenvolvida no livro Orientalismo (2007), de Edward Said, que será o estudioso precursor dos estudos pós-coloniais.

A narrativa de Abdulai Sila é uma amostra de vários preconceitos e ideias que circulavam e que estabeleciam comportamentos em uma Guiné Bissau antes da independência. A obra de 1994, segunda produção em prosa do escritor, possui três personagens principais: a jovem Ndani, o Régulo Bsun Nanki e Professor (personagem não nomeado). Os três são negros e cada qual se relaciona com a colonização de um modo diferente – de acordo o gênero, classe e escolaridade – contudo, tornam-se semelhantes ao questionarem a autoridade dos colonizadores sobre si.

 A narrativa começa com Ndani, uma moça de Biombo, que é vaticinada por uma espécie de feiticeiro (conhecido no idioma tradicional como djambakus), como portadora de um mau espírito no corpo e que por onde ela andar levará infortúnios. Através dos conselhos de sua madrasta mais nova, Ndani sai em busca de emprego na cidade de Bissau. “Sinhora, quer criado?” é dito insistentemente em várias casas de pessoas brancas, levando inúmeras negativas. Ndani passa a insistir na pergunta na casa de Maria Deolinda, mulher que depois de uma epifania, se entregará ao serviço de missões evangelizadoras afim de “salvar” as almas dos negros de Guiné Bissau, incluindo a de sua criada, que logo terá seu nome mudado para Maria Daniela e entrará no catecismo a fim de receber o batismo e o crisma.

Em um segundo momento, o narrador apresenta a história do Régulo Bsun Nanki que vive em Quinhamel. Ele é uma autoridade tradicional na aldeia, porém deve obediência ao Chefe Cabrita, homem mestiço que é designado por Portugal para tomar de conta da região. Régulo questiona essa autoridade e a condição dos nativos sob o jugo colonizador. Em uma atitude em se equiparar ao Chefe Cabrita, Régulo tem a ideia de se casar com uma moça que seja alfabetizada e que saiba tomar de conta de uma casa igual a uma mulher branca. A futura esposa será Ndani que retornou para Biombo e tem o casório articulado pela antiga patroa depois de ter sido estuprada pelo patrão.

Em um terceiro momento é apresentado o Professor. A personagem não tem seu nome revelado, mas seu passado é contado como um garoto que perdeu o pai depois de  ter questionado a autoridade de um branco e por esse motivo foi morto. Tendo frequentado uma escola católica, obtém instrução e é doutrinado a acreditar na supremacia da cultura europeia, mas quando começa a lecionar, reflete sobre a seleção de conteúdos que precisa ministrar para seus alunos negros, já que tais assuntos pouco têm a ver com a realidade dos meninos guineenses. Foi contratado por Régulo para trabalhar na escola de Quinhamel e para redigir seu testamento. Contudo, apaixona-se e tem relações com Ndani – mesmo ela estando casada – e após a morte de Régulo, vai viver com a amada em Catió, onde, repetindo a atitude do pai, afronta a autoridade de um branco sendo posteriormente preso e tendo um fim indefinido. 

Em meados de 1970, as colônias portuguesas Guiné Portuguesa e Cabo Verde, empreenderam uma luta anticolonial e nacionalista em busca da separação do domínio português. À frente estava Amílcar Cabral que tinha a ideia de unir os dois países tanto na luta anticolonial como em um único país depois da conquista da independência. Contudo, Amílcar foi assassinado em 1973, episódio triste, mas ao mesmo tempo foi um intensificador da luta e, no mesmo ano da morte do idealizador, é proclamada a independência de Guiné Bissau, reconhecida por Portugal só no ano posterior. A paz política no país acontece por breves períodos, pois desde sua emancipação, Guiné Bissau passou por períodos ditatoriais, golpes de Estado, que contribuíram para prejudicar a qualidade de vida dos cidadãos mergulhando o país em uma situação calamitosa.

Sila, ao recuar a narrativa para o período colonial, traça uma gênese da corrupção e dos desmandos que iniciam justamente com a intervenção no território guineense pelos portugueses que de forma arbitrária mandam e desmandam ao seu bel-prazer. Essa opressão se instala reverberando em mestiços e negros, que por terem algum poder delegado pela metrópole, tomam atitudes similares ao dos brancos. Forja-se uma sociedade dicotomizada, baseada na cor da pele e no poder que é outorgado por Portugal. A classe privilegiada é branca, católica e portuguesa. A este grupo é incumbido cargos reguladores na colônia. Deolinda é a personificação dessa classe. Não suporta Guiné Portuguesa, mas toma para si a ideia de que possui uma missão no território “esquecido por Deus”. Enquanto seu marido é policial e anseia por uma promoção, ela se torna uma missionária, ganhando visibilidade dentro da Igreja Católica local e no seio aristocrático da colônia.

Em Orfeu Negro, Sartre diz: “O que esperáveis que acontecesse, quando tirastes a mordaça que tapava estas bocas negras? Que vos entoariam louvores?” (1948, p. 89). Literatura para estes escritores negros é um holofote para denúncias, é o fim do ciclo de silenciamento que os foi imposto por séculos. O que vai ao encontro do que Chinua Achebe escreve “os negros precisam é recuperar o que lhes pertence – sua história – e narrá-la eles mesmos” (2012, p. 66).

Ndani é construída de forma complexa pelo autor e carrega em si diversas manifestações do que é ser um indivíduo alienado. A uniculturalidade imposta pelos portugueses subjuga as culturas que já estavam naquele território antes da chegada dos colonizadores. Não há relação de “senhor” e “escravo”, mas a dicotomia colonial “colonizador” e “colonizado” é tão bárbara quanto a outra. A literatura assume um papel político que ecoa e dá vida aos que ora eram considerados ignorantes e incapazes, e hoje são os que têm muito a dizer.   

Observação: Este texto é composto por excertos de um artigo científico. Devido a extensão, preferi colocar alguns parágrafos. Caso queira ler o artigo completo intitulado “A má sorte da personagem Ndani em A Última Tragédia, de Abdulai Sila”, solicitar nos comentários. 

 

Referências

SAID, E. W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SARTRE, J. P. Orfeu Negro. In: SARTRE, J.P. Reflexões sobre o racismo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1948.

SILA, A. A Última Tragédia. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.

Filmes

Chi-raq, filme do Spike Lee

               132244 Vidas negras importam. Essa é uma frase que infelizmente é ecoada para que a situação do genocídio negro seja percebida como resultado da situação de marginalidade que o racismo estrutural provoca. Desde a chegada das primeiras pessoas escravizadas, suas vidas sempre foram destinadas a subserviência e consideradas sem dignidade. Com a abolição pouca coisa mudou, pois como diz Angela Davis, em uma sociedade sem paz não há liberdade.

O filme Chi-raq (2015), do diretor Spike Lee, aborda a realidade da área mais perigosa de Chicago. O território é tão violento que supera em números as mortes calculadas no solo iraquiano. Inclusive o nome da região faz referência a situação similar a um extado de guerra, já que é uma junção das palavras Chicago e Iraque. O ocorre em Chi-raq é a constante tensão entre gangues (o que no Brasil é mais comum de nomear de facção) que se rivalizam por domínios, culminantes em mortes de elementos integrantes como de pessoas alheias.

            O filme utiliza da obra do ateniense Aristófanes para construir a estrutura da narrativa. O escritor grego criou peças de comédias que mesmo com o intuito de levar os espectadores ao riso, também fazia veladas críticas ao que ocorria em seu tempo. Sua peça mais famosa é Lisístrata, muitas vezes acompanhadas do subtítulo A guerra dos Sexos. O enredo é sobre uma mulher ateniense chamada Lisístrata, que cansada da ausência do marido por conta da Guerra do Peloponeso, decide congregar todas as mulheres dos homens envolvidos na guerra e propor uma tática que o conflito acabe. Passando por cima da rivalidade entre Atenas e Esparta, as mulheres de ambos os lados, juntam-se e resolvem decretar abstinência sexual até que o conflito finde. O ápice da resolução feminina é quando elas se apoderam da Acrópole, símbolo do poder, e se isolam. Os homens à princípio debocham, mas ao longo dos dias de abstinência, começam a sentir os efeitos da falta do contato feminino o que “amolece” os brios masculinos, chegando a tão almejada paz.

            Em Chi-raq a greve feminina iniciará depois que mais uma criança morre por bala perdida. Lisístrata, mulher do líder da gangue dos Spartans, cansada da situação de violência, conhece a história de Leymah Gbowee, uma ativista que seguindo os passos da protagonista ateniense, convence as mulheres da Libéria a não ter relações com seus companheiros em busca do fim da guerra civil que há anos assolava o país. Percebe-se que o filme do Spike Lee não é de todo ficção. Há muitas ocasiões em que a vida real se fará presente ao longo do filme, como a emocionante macha de mães que clamam pela justiça e paz. Lisístrata então, convence as mulheres da região a aderirem ao seu plano.

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    Tal como as mulheres da peça de Aristófanes, as mulheres tomam um símbolo de poder masculino, que no caso do filme é um quartel general. O movimento ganha visibilidade através da mídia o que faz que a greve se espalhe pelo mundo. Angela Davis (2016) em seu artigo “As mulheres negras e o movimento associativo” já revela que mulheres negras têm em sua trajetória de luta o ímpeto de unirem forças, como ocorreu no final do século XIX, ao criarem grupos em prol do fim do linchamento de vidas negras. Ida B. Well, assim como a liderança de Lisístrata, foi “um chamariz para as mulheres negras recrutadas para ingressar no movimento associativo” (2017, p. 137). Ida utilizou de passeatas, jornais, da sua voz para pôr fim as leis racistas. Coincidentemente, Ida atuava em Chicago.   

            O ponto alto é a homilia do Padre Mike, um homem branco com roupas litúrgicas que fazem referência à cultura afro. Em uma igreja com um Jesus negro em destaque, Padre Mike exibe uma arma de fogo. A partir desse objeto ele desenvolve uma linha de argumentação que deflagra como as vidas negras correm risco com o comércio armamentista. Não existem leis suficientes seguras às armas. É de interesse dos grandes fabricantes que essas armas sejam vendidas na clandestinidade e seu destino, em maioria, são as periferias. “Patti morreu por que armas tornaram-se parte do vestuário americano”, diz que dado momento o padre. Com o crescimento da posse de armas, cresce também o encarceramento em massa (que nos EUA é do âmbito de empresas privadas, logo elas têm interesse que mais e mais pessoas sejam presas). O padre completa: “O encarceramento em massa é o novo Jim Crow”; ou seja, é a nova forma de segregação dos negros, de colocá-los em cativeiros.

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            A comoção tanto pela morte da menina Patty como a greve comandada por Lisístrata, faz com que os integrantes de gangues revejam seus atos e reflitam. O namorado de Lisístrata é o mais resistente a uma pacificação. Em uma determinada cena, um ex-integrante de gangue, agora cadeirante, aproxima-se e comenta que deu vida a vida as lutas entre gangues e a única coisa que recebeu em troca foi mijar e cagar sem perceber, alusão a sua paralisia.

            Ao longo do filme há presença de momentos musicais o que faz do filme ser de gêneros múltiplos, oscilando entre o drama, comédia, musical. Há um narrador excêntrico e cheio de rimas interpretado por Samuel L. Jackson e ambientações que o telespectador é transportado para um palco de teatro. O filme tem muitos pontos positivos, todavia ainda tropeça da caracterização das mulheres no qual há uma exploração visual dos seus corpos em cenas de nudez e figurinos.

            Tanto Lisístrada do Spike Lee, como Ida B. Well e outras ativistas negras, tinham por intuito alcançar a paz, logo, a liberdade.

Nossa história como pessoas afro-americanas deveria nos tornar especialmente sensíveis às questões relativas à paz, pois desde a época do tráfico de escravas e escravos da África temos sido submetidas pela classe dominante branca em busca do lucro e poder a agressões características de uma guerra.  (DAVIS, 2017, p. 65)

            big_thumb_lisistrataPara finalizar, indico a leitura da obra Lisístrata, na edição da Editora Hedra com tradução de Ana Maria César Pompeu. Tive o prazer de entrar em contato com Aristófanes através de uma disciplina na pós-graduação da professora Ana Maria intitulada “As mulheres de Aristófanes”. Para completar as honrarias, a professora também esteve na minha banca de qualificação na qual me ofereceu excelentes dicas sobre a redação do texto como em complementações. Fato curioso é que a professora também traduziu a peça para “cearensês” adaptando falas, nomes e situações para o contexto tipicamente dos cearenses. Também tive o privilégio de assistir uma encenação de Lisístrata em um teatro de bonecos utilizando o texto adaptado da professora Ana Maria. Seria redundância dizer que foi divertidíssimo.  

Referências

Davis, A. As mulheres negras e o movimento associativo. In Davis, A. Mulheres, cultura e política. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

Davis, A. A paz também é um assunto de irmãs: mulheres afro-americanas e a campanha contra as armas nucleares. In Davis, A. Mulheres, cultura e política. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2017.

Autoria feminina · Impressões literárias

Oroonoko ou o Escravo Real, de Aphra Behn

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Em nossa literatura nacional, Peri, do livro O Guarani, do cearense José de Alencar, é considerado “o bom selvagem”, termo que ficou famoso através de Jean Jacques Rousseau ao abordar que o homem nasce bom, porém com o tempo ele se corrompe através das relações sociais, “o homem é o lobo do homem”, outra frase famosa do francês.

O bom selvagem aparece de forma inusitada no pequeno romance Oroonoko, publicado em 1688, de uma inglesa que estava há anos luz de seus conterrâneos. A vida de Aphra Behn é envolta de incertezas. Não se sabe com exatidão onde nasceu e como foi sua vida. Ao que pode ser verificado é o fato dela ter sido, por um breve tempo, espiã inglesa na Holanda. Também é verificável o fato dela não ter ricos a patrocinando, os famosos mecenas. É outorgado a ela o título de ser a primeira escritora a viver exclusivamente da venda de suas obras. Mesmo sendo mulher em uma sociedade ainda mais machista do que atualmente, Aphra conquistou fama e riqueza ao ponto de ser enterrada, aos 49 anos, na Abadia de Westminster.

oroonokoEm pleno século XVII, a escritora criou um romance em que os protagonistas são um casal de negros. Em Oroonoko ou o Escravo Real, tem-se a narração em terceira pessoa através do olhar de uma mulher – que muito se especula que seja a própria Behn rememorando o seu tempo em que morou no Suriname –  a trágica história de um príncipe de um distante reino africano que teve sua vida mudada, após ele e seu avô, o rei, disputando o amor da bela Imoinda.

A narradora não poupa elogios a Oroonoko. É descrito como belo, inteligente, leal, valente…  o bom selvagem! É de uma ingenuidade sem igual sendo recorrente ser enganado por mentiras. Sua inocência em não ver a vilania no próximo é justificada pelo fato dele não ter sido imerso em relações calcadas na mentira, na falsidade, na traição, por isso é tão fácil os homens brancos o ludibriarem. Em uma das mentiras, ele é capturado e torna-se escravo em uma fazenda no Suriname. Sua tristeza diminui ao encontrar Imoinda na mesma fazenda. Todavia, a vida do herói é uma sucessão de tristezas e se tem o que possivelmente seja a primeira rebelião de pessoas escravizadas na literatura.

A narrativa cai em clichês como a suposição que a prática da poligamia é comum em todas as nações africanas, da surpresa em narradora conhecer que negros podem ser “civilizados”, que há amor nas relações entre negros, entre outras; e também esbarra em comentários racistas. Contudo, a obra é de um vislumbre sem par justamente por romancear e ter como herói um negro.

Seu rosto não era daquele preto castanho-ferrugem que predomina em sua raça, mas da mais perfeita cor do ébano. Seus olhos causavam espanto e eram muito penetrantes, com o branco da cor da neve, como seus dentes. Seu nariz era romano, levemente elevado, e não achatado, como é típico dos africanos. Sua boca era do mais perfeito desenho, muito longe daquele formato tão comum entre os membros da raça negra, de lábios carnudos e revirados. As proporções e a expressão de seu rosto eram de tal nobreza e de formas tão perfeitas que, a não ser por sua cor, nada poderia haver na natureza de mais belo, de mais agradável ou de mais simpático… (BEHN, 1999, p. 32-33)

Referências

BEHN, A. Oroonoko ou o Escravo Real: uma história verdadeira. Trad. e apresentação Élvio Antônio Funck. Florianópolis: Editora Mulheres, 1999.

Filmes

Melody, 1963: O amor tem que vencer, uma história de uma garota americana

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Por muito tempo rechacei a cultura americana. Cresci escutando opiniões paternas que os Estados Unidos queria ser o dono do mundo, sempre metendo-se em assuntos que não o cabiam. Lembro-me da época que se discutia muito sobre a ALCA (área de livre comércio na América) e como seria danoso para os países emergentes e ótimo para os EUA. Aquele nacionalismo exacerbado que era comum ver em filmes confirmava a prepotência dessa nação.

Ainda sinto um sentimentozinho contra a terra do Tio Sam, todavia ao começar a enveredar pelos estudos dos movimentos negros descobri uma faceta dos estadunidenses que me agrada. As grandes teóricas negras feministas são de lá – bell hooks, Angela Davis, Alice Walker  –, os grandes exemplos de articulações entre negros também é de lá – Panteras Negras  –, a noção de unidade e de mãos dadas que melhor funcionou foram dos negros dos Estados Unidos. Além disso, sinto muita inveja (confesso) de como eles falam, com grande espaço na mídia, do passado de jugo, do racismo. A sensação que sinto, é que nós brasileiros estamos em anos de atraso em relação a eles em epistemologias e abordagens raciais. Pautas que hoje para nós são recentes (digo em visibilidade, pois aqui no Brasil também houve organizações de pessoas negras), lá já eram discutidas na década de 50.

Meu processo de desconstrução é cotidiano. Em boa parte da minha vida como apreciadora de séries e filmes, eu deixei de lado produções com atores negros. Lembro BR21197que não curtia, porque sempre havia um viés político que eu não entendia: Um Maluco no Pedaço, Todo Mundo Odeia o Chris. Mesmo sendo uma pessoa negra (algo que só tomei consciência tardiamente), eu não entendia o que eles diziam em tom de piada, mas com uma dose de crítica. Meu nível era Sai de Baixo, A Grande Família e olhe lá. Hoje, ao ver algum episódio dessas séries que citei, percebo vários diálogos que outrora foram despercebidos e hoje fazem total sentido (recentemente reassisti ao Um Príncipe em Nova York e fiquei impactadíssima com as críticas ao racismo da sociedade americana que há no filme de 1988). Em outras palavras, eu era uma alienada.

 

Essa introdução enorme foi para chegar ao ponto do episódio que assisti ontem. Melody, 1963: O amor tem que vencer, uma história de uma garota americana, ao que parece faz parte de uma série que retrata garotas americanas de etnias diferentes em anos diversos. Há três episódios na Amazon Prime e o primeiro é justamente com a protagonista negra Melody sendo contextualizado no ano de 1963.

d4731ec8b5bf611a4e6b8f37919a205d--american-girlsMelody é uma menina super criativa, que costura fantasias que dão asas a sua imaginação. Sua família consiste em sua mãe e seu avô paterno. Logo no início do episódio, ao mostrar sua fantasia de astronauta para o avô, o patriarca meio que dá um banho de água fria nos sonhos da menina. Ele mostra a notícia que meninas negras com idade próxima a da Melody foram presas simplesmente por quererem lanchar em uma lanchonete específica. A menina mora em Detroit que fica na parte do norte do país, o que a coloca em um lugar pouco menos perigoso para pessoas negras já que no sul do país do apartheid ainda vigora. Mas mesmo assim, mesmo morando na região norte, o racismo ainda está lá à espreita, nos pequenos olhares, no convívio social, nas relações de trabalho e na falta de oportunidades.

A mãe da Melody é uma mulher viúva que perdeu o marido na guerra. É uma exímia pianista, porém trabalha como costureira em uma fábrica. A carreira interrompida como resultado do racismo é “esfregada” na cara da mulher através do diálogo do avô. Aliás, esses dois personagens, avô e mãe, são sujeitos com perspectivas diferentes da sociedade. O primeiro é pessimista, acredita que a sociedade nunca vai deixar de segregá-los tornando a vida deles para sempre difícil; a mãe já é esperançosa e incuti na filha esse sentimento que um dia ela será capaz de realizar tudo o que sonhou.

A personagem materna me remeteu ao texto À procura dos jardins de nossas mães, da Alice Walker. No texto, a escritora americana critica o texto conhecidíssimo de Virgínia Woolf, Um teto todo seu. O texto da inglesa fala sobre o que é necessário para uma escritora ser capaz de produzir literatura: tempo, dinheiro e um teto todo seu. Alice concorda, mas para uma mulher negra isso não se encaixa. Ela rememora as mães e avós, “as mulas do mundo”, que carregam em seus corpos o peso da escravidão (casamentos arranjados, maternidades seguidas, violências sexuais), mas em algum lugar de suas almas, guardavam sua arte, que às vezes podia se manifestar em coisas simples, como o cuidado com um jardim.

“Você teve um gênio de bisavó que moImagem relacionadarreu sob o chicote de algum capataz branco e depravado? Ou ela foi obrigada a assar biscoitos para um vagabundo preguiçoso de um lugarejo qualquer, quando ela gritava na sua alma para pintar aquarelas de pôr-do-sol, ou a chuva caindo nas pastagens verdes e cheias de paz? Ou o seu corpo alquebrado era forçado a gerar filhos (que as mais das vezes eram vendidos e apartados delas) – oito, dez, quinze, vinte filhos – quando sua única alegria era modelar figuras heroicas de Rebelião, em pedra ou argila? (WALKER, p. 324, 1986)

Melody diante de seguidos episódios de violência contra pessoas negras começa a questionar o porquê que os policiais só batem em negros, o porquê do hino falar é lealdade para todos sendo que os americanos negros são tratados de forma diferente. A outrora garotinha imaginativa dá lugar a uma menina irritada com a sociedade que não a aceita por conta da sua tonalidade de pele. É triste ver seus sonhos interrompidos ao constatar que sua vida será bem mais árdua do que dos colegas brancos da escola.

Entretanto o episódio não é triste como um todo, visto que é uma produção destinada às crianças. É uma excelente produção para iniciar crianças sobre pautas raciais e até para conscientizar adultos de como o racismo se manifesta. A protagonista é cativante e mesmo com pouca idade é capaz de fazer uma minirrevolução.

 

Referências

WALKER, A. À procura dos jardins de nossas mães. WILMORE, G.S.; CONE, J. H. (org.). Teologia Negra. Trad. Euclides Carneiro. São Paulo: Paulinas, 1986.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu.  Trad. Bia Nunes de Sousa, Glauco Mattoso. São Paulo: Tordesilhas, 2014.