Vida acadêmica

Entre Santa Efigênia e voduns: Diálogos Makii ou Será eu uma makii?

Santo Elesbão e Santa Efigênia

Entre os séculos XVI e XIX cerca de seis milhões de africanos foram trazidos para o Brasil. Quem se interessa um pouco pelo assunto conhece, possivelmente, algumas das nações que tiveram seus indivíduos escravizados – jeje, iorubás, hauçás, congo, entre outros. Porém, a falta de informações, de documentações a respeito desse período aqui no Brasil, torna cada novo conhecimento um ponto a comemorar.

Em Diálogos Makii (2019), é apresentado integralmente o texto de Francisco Alves de Souza a respeito da transição da liderança da Congregação Makii. Fatores interessantes que esse texto revela são: I. Um texto erudito escrito por um homem preto que não se sabe bem conseguiu uma formação intelectual, pois exerceu a função de barbeiro ao longo do cativeiro que durou quarenta anos; II. A organização dos negros makii no campo religioso e social; III. Demonstração de haver uma constante ligação com o continente africano ao ponto de abordar questões atuais que se passavam na região que os congregados vieram; IV. A mais importante para mim: o conhecimento desse tronco étnico makii/mahi/makki, do qual foram capturados e enviados a maioria para o Rio de Janeiro.

Os makii se destacavam por serem apreciados em sua “facilidade” em se adaptar ao serviço imposto. Muitos exerceram o ofício de barbeiros e quitandeiras, o que corroborava para em cerca de 15 anos obtivessem sua alforria. Uma vez forro parte buscava instrução para desempenhar melhor os novos papeis na sociedade brasileira, inclusive o de tornar senhores de escravizados. Esteticamente, eles também se destacavam pelas marcas corporais típicas da etnia, descritas como desenhos de cobras no rosto e no tronco.

Relevante é que possivelmente, a primeira escritora brasileira é uma mulher pertencente a um sub-grupo makii, os couranas, a Rita Courana ou como foi ficou mais conhecida, a Rita Egipcíaca, uma negra escravizada que trabalhou por anos como meretriz. Depois de uma doença, uma profunda transformação operou-se na mulher, fazendo-a ser vista como santa, mística. No seu intento de escrever o que se passava consigo, aprendeu a ler e publica um livro, que mais tarde será destruído pela Inquisição.

O fato de cerca de 200 negros makii se organizarem e fundarem uma congregação religiosa católica representa um poder de ajuntamento em um tempo de comunicação truncada, mas também a fraternidade makii transvertida de fé católica. Esse último ponto é questionável, uma vez que lemos Francisco Alves argumentando com propriedade sobre a fé católica e  demonstrando uma certa graça divina em seguir tal religião. Longe de ser autoritária e impor minha concepção da real finalidade da congregação, porém penso que a fé em Santa Efigênia era sim um argumento dúbio que referendava perante a sociedade a necessidade de mais de 200 negros se reunirem. É bom lembrar, que a a polícia não via com bons olhos ajuntamentos pretos, por temerem confabulações para futuras revoltas. Uma vez justificada pela necessidade de honrar uma santa católica (e negra!), os pretos tinham livre acesso a Igreja e a reuniões.  Francisco também deixa transparecer em seu texto que pertence a uma ala mais conservadora, que não aprecia a miscelânea de ritos makii e católicos. Oposto ao antigo rei da congregação, falecido, por isso o processo de transição ao qual Francisco é escolhido como sucessor, porém enfrentando resistência de um grupo liderado pela viúva do rei anterior. 

Igreja Santo Elesbão e Santa Efigênia (Rio de Janeiro) - Tripadvisor

O livro é um libelo e também um corolário das pesquisas de brasileiros que buscam saber mais sobre o que nos foi tirado. Em breve – tão logo, assim espero -, quero visitar a Igreja de Santa Efigênia, no Rio de Janeiro. Construída pela congregação de Makii, hoje ela está presente bem no fluxo comercial do centro carioca. Espero um dia adentrar no templo pisado pelos pretos da Costa da Mina, que em tempos de morte e dor, conseguiram burlar o sistema escravista criando uma sociedade com viés religioso, mas acima de tudo, de resistência.

SOARES, Mariza de Carvalho (org.). Diálogos Makii de Francisco Alves de Souza: manuscrito de uma congregação católica de africanos Mina, 1786. São Paulo: Chão Editora, 2019.  

Vida acadêmica

A devastação da paternagem em A Terceira Vida de Grange Copeland, de Alice Walker

            De uns tempos para cá, cada vez tenho me interessado, e progredindo, em me filiar aos pressupostos do Mulherismo Africana, cunhado pela estadunidense Cleonora Hudson. Essa corrente afrocentrada, não é o antagônico do Feminismo. É como diz a filósofa Kattiúscia Ribeiro “uma nova forma de viver minha essência com meus irmãos de cor”.

            Um dos pontos que mais me atraem no Mulherismo Africana é a importância de pegar na mão dos homens pretos e ajudá-los a (sobre)viver na sociedade racista. A importância de irmandade focada na questão racial e social é para mim mais importante no momento. Isso vem de mim há tempos: só estou bem, se as pessoas que amo, que estão ao meu entorno, também estão bem. Ou seja, vislumbrar uma teoria que tem o social como base, afagou meu coração.

            Entra-se a questão que eu não vejo progresso em, eu mulher preta, ascender socialmente, sabendo que meus irmãos pretos estão sendo exterminados em prisões, mortos em batidas de policiais… Quero o homem preto junto comigo, protegido, amado, PONTENCIALIZADO!

            O primeiro romance de Alice Walker traz o drama familiar por meio das agruras de ser homem em uma sociedade racista e machista. Talvez não seja óbvio para muitos, mas a maior diáspora do mundo, além de destruir famílias, destruiu também as performances de paternar dos homens africanos, sua autoestima, suas tradições, SEU CHÃO!

            Na vida do homem escravizado cabia a ele serviços braçais pesados e o ato de engravidar suas companheiras de cativeiro. Sem afeto, sem ritual, sem benção dos ancestrais, ele fecundava suas irmãs de cor para gerar mais pretinhos para os trabalhos forçados. Percebe-se a animalização desse homem tal como um mulo? Carregar fardos físicos e psicológicos, esconder a dor de não poder amar e ser amado, e como golpe final, privar esse homem de ser pai de uma maneira sem dor, sem traumas, sem um martírio que nem ele bem entende, mas carrega de maneira ancestral (oi, epigenética!).   

            Assim, fragilizado, quebrado da cabeça aos pés, é Grange Copeland. Ele não consegue demonstrar amor ao filho. Não consegue manifestar afeto pela sua continuação na figura Brownfield. O rejeita por meio da omissão, do silêncio, da apatia. Suas fugas são a bebida e os braços de outras mulheres. Um leitor comum compreende a figura de Grange como um homem afundado em dívidas, por isso o comportamento evasivo. Todavia, um olhar mais acostumado com a mazela de ser homem preto, vislumbra a dor de não se saber ser pai, porque muitas vezem nem referência tem.

            Sua condição precária, vista por mim como uma maldição, é herdada pelo filho Brownfield, que tal como um ciclo, repete sua tarefa de pai de maneira desastrada, cruel, beirando o sadismo, porque não soube o que é ter pai. Já homem feito, Brownfield sofre pelo pai não tê-lo amado, não ter cuidado dele. Segue seus rastros em busca do seu amor disfarçada de vingança. Ferir seu pai, já idoso, por meio das netas é dizer “pai, você não as amará, porque você não amou eu que sou seu filho. Ame-me primeiro!”. Tais palavras de outras maneiras são ditas por esse filho machucado. Grange entende, sente, gostaria de voltar a atrás, por já velho compreender o tanto que seu desamor destruiu seu único filho. Mas o tempo é cruel e a única forma que entende como reparação, é proteger suas netas, em especial Ruth.

            O final trágico enlaça o que é previsível desde os primeiros capítulos. Não há uma segunda chance para quem é preto. Talvez, caro leitor, entenda o porquê da maioria das mães solo nesse país serem pretas. Não é por acaso. É a consequência brutal do que a falta de amor por mais de 300 anos infringiu aos nossos homens pretos que vagam por aí em busca de se reconectarem.

 

WALKER, Alice. A terceira vida de Grange Copeland. Trad. Carolina Simmer; Marina Vargas. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 2020.

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A bem-aventurança de ter uma genealogia em Água de Barrela, de Eliana Alves Cruz

            Eliana entre os negros diaspóricos brasileiros é uma privilegiada, por mais que isso possa parecer paradoxal em uma sociedade racista como a nossa. Por meio da herança da oralidade, a escritora tem domínio de sua genealogia, desde o primeiro ancestral raptado e trazido na condição de escravo ao Brasil até os descendentes nos dias atuais. Em meio a tanta dor, saber de que parte da África, os nomes, o que faziam, sem a necessidade de recorrer ao exame de DNA mitocondrial, acervos históricos como batistérios e óbitos, é sem dúvida um motivo de alegria.

            A família da escritora, depois que aportaram no Brasil, seguiu uma sucessão de nascimentos de filhas únicas. Possivelmente, o fato da família ter se mantido com um pequeno número colaborou para que a história familiar fosse repassada e vivenciada. Nas diversas gerações, é comuníssimo morarem juntos avó-mãe-filha, sem falar na presença de bisavós. Isso se deve as gravidezes precoces, ainda da juventude, que permitiram até quatro gerações conviverem, sempre havendo a rememoração do passado e seu significado no presente dos mais novos.

            A primeira que chega ao Brasil é Ewa, uma jovem menina recém-casada,  raptada ainda grávida. Seu marido morre na captura, e mesmo com a travessia desumana, ela ainda consegue chegar no solo brasileiro, ser nomeada de Helena, e gerar sua filha Anolina, em sua última força física. A partir disso, a cada nova geração que nasce, suas vidas são entrelaçadas com a família branca que os comprou. Novos negros nascem que tornam-se escravos e, posteriormente após a abolição, em serviçais. Há uma ligação de servidão que nem mesmo a Lei Áurea é capaz de dissolver, pois como bem sabemos, a abolição foi mais uma questão moral religiosa, que não se ateve à questão de sobrevivência das famílias negras que, por vezes, continuaram sendo escravos de brancos.

            O pai da autora é o primeiro menino a nascer depois de tantas mulheres que há anos predominavam. Eloá é a ruptura e o começo da ascensão. É o primeiro da família que não precisou trabalhar para nenhum familiar da família Tosta e, ademais, ainda entra no curso superior de Direito. Interessante acompanharmos a ascensão social e acadêmica da família da autora e o declínio econômico dos Tosta, todavia, mais belo é ver a alegria dos mais velhos em ver que suas ramificações não precisarão cumprir o ciclo da barrela para a família Tosta.

                Enquanto leitora, apego-me à história família de Eliana como se fosse a minha. Pouco sei sobre meus ancestrais do lado materno. Sei até o ponto do pai do meu bisavô, o nego Cirilo, que casou com uma mulher muito branca e gerou muitos filhos nela, porém a abandonou em seguida. Todos os filhos nasceram negros e um deles é o Francisco das Chagas, meu bisavô. Foi analfabeto até certa idade, e depois de ter sido humilhado por não saber ler, decidiu ir atrás do conhecimento. Então, casado com Antônia, mulher de pele clara, teve seis filhas, as quais impôs uma educação rígida. Também foi candango e voltou de Brasília à pé, o que demorou 4 meses e 17 dias. Sua filha Raimunda, minha vó, foi tentar a sorte na capital federal. Casou, sem saber, com um homem bígamo, e depois, foi abandonada grávida. Criou a filha sozinha cozinhando em uma creche de religiosas. Quando soube das intenções das freiras em tornar sua filha noviça, pediu as contas e voltou para o Ceará. Fátima, minha mãe, é uma história e tanto que prefiro deixar, no momento, de fora, pois as lágrimas surgem. O que posso dizer resumidamente é que minha mãe é a personificação da educação. Primeira da família a ter diploma superior, criou uma escola, e incutiu em mim o poder da educação. Olhando para trás, eu enxergo um caminho pedregoso em que o objetivo sempre foi o conhecimento. Das Chagas, meu bisavô, em sua simplicidade e pobreza, deixou como legado a busca incessante pelo saber. Nunca vi uma foto dele, acho que nem há; mas trago comigo a disciplina de quando nos encontramos em um plano divino que acredito existir, dizer, “bisavô, eu consegui tudo que um dia te negaram por tua cor. Obrigada por ter ido atrás de aprender ler e ter obrigado suas filhas a frequentar uma escola. Eu sou teu fruto”.

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O personagem do negro fiel em Helena, de Machado de Assis

Machado de Assis é estigmatizado como um autor afrodescendente que não assumiu sua cor de pele nem foi engajado no movimento abolicionista. Muitos intelectuais são responsáveis por perpetuar essa ideia como Mario de Andrade ao dizer que “Machado de Assis não profetizou nada, não combateu nada, não ultrapassou nenhum limite infecundo. Viveu moral e espiritualmente escanchado na burguesice do seu funcionarismo garantido e muito honesto, afastando de si os perigos visíveis” (apud Brookshaw, 1983, p. 20). Ultimamente pesquisas ressoam que Machado tinha sim um engajamento, não tanto evidente e público, mas nas sutilezas, como em poesias, personagens, artigos, no âmbito literário; como no profissional, sendo um servidor do Ministério da Agricultura, no qual tinha por função fazer valer a liberdade dos filhos de negros escravizados que haviam nascido após a lei de 1871, como revela Sidney Chalhoub. Para laurear e tornar inquestionável o Machado de Assis homem do seu tempo e do seu povo mestiço, o professor Eduardo de Assis Duarte publicou o livro Machado de Assis afro-descendente: escritos de um caramujo (2009). O livro é uma antologia com diversos textos, de diferentes gêneros, que provam que o Cosme Velho literariamente posicionou-se contra a terrível condição do povo negro.

          Helena, terceiro romance do escritor, publicado em formato de folhetim no ano de 1876, é considerados por alguns uma obra menor e esquecível do autor. Porém, o professor Eduardo Luz (UFC) é contrário a essa ideia e possui uma tese e livros que refutam essa ideia além de colocar Helena como uma obra importante para as obras subsequentes do autor (arrependo-me muito de não ter feito uma disciplina na pós com o professor Eduardo Luz sobre o livro).

          A romance tem como protagonistas Estácio e Helena. O rapaz é um sujeito, ligado aos livros e que de repente se vê responsável pelo patrimônio paterno depois da morte súbita do patriarca. Ao abrirem o testamento, é divulgado que Estácio possui uma meia irmã fruto do caso extraconjugal do pai. A última vontade do falecido é que a moça chamada Helena vá morar como a família na fazenda. A chegada da moça enche a casa de novos ares, porém fofocas começam a surgir devido os passeios matutinos que a menina faz com seu pajem além de falas truncadas que a menina vez por outra emite.

          Como um típico romance do período romântico, temos um retrato da burguesia em seus costumes e ócios. A pitada de brasilidade está na presença sutil – e em alguns momentos importante – de personagens negros todos na condição de escravos da família de Estácio.

          Logo no início, com a chegada de Helena à casa do falecido pai, é relatado que os escravos a tratam com cautela, visto que Dona Úrsula, tia de Estácio, não está contente com a inserção da bastarda no seio familiar. Aos escravos é delegado um sentindo de lealdade à patroa, que confirma a construção de personagens seguindo o estereótipo de “negro fiel” tão comum nas narrativas. Para Helena é cedido um pajem que a acompanhe em seus passeios, o negro Vicente. Chamou-me a atenção o fato de uma mocinha de 16 anos ser entregue aos cuidados de um homem que, mesmo escravo, poderia ser um perigo a sua inocência. Entra-se, novamente, no que seria o negro fiel no qual não havia a mínima possibilidade de se imaginar que um negro, há tempos na família, um animalzinho de estimação da mais alta estima, pudesse cometer um ato rude contra a sinhazinha.

          Em momentos lemos a servidão em tudo, como retirar a roupa do patrão, trazer um tamborete, fazer um café. Coisas mínimas que os brancos não podiam fazer sem o auxílio do escravo. Mesmo sendo colocado numa hierarquia subumana, havia precauções, como em que em certo momento quando Mendonça, amigo de Estácio, que conversar sobre sua afeição a irmã do amigo, ele espera o escravo terminar de retirar a roupa do patrão e sair do quarto. São pontos contraditórios ao meu ver: ora o negro é um nada, ora ele é ouvidos aguçados que intimidam.

          Há uma passagem no romance em que me peguei pensando sobre a real (ou dualidade) da conotação. Helena e Estácio estão cavalgando e encontram um negro alegremente descascando uma laranja. É um momento epifânico para os personagens, pois utilizam da fisionomia tranquila do homem para ilustrar que mesmo em condição infeliz ainda encontra felicidade em pequenas atitudes, como chupar laranja sossegadamente e andar a pé, que segundo Estácio, o faria experimentar, ao menos por uma hora, a sensação de liberdade (similar ao jogo do contente do romance infanto-juvenil Pollyana).

[…] Vê aquele preto que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que nós, terá de gastar, a pé, mais de uma hora ou quase.

          O preto de quem Estácio falara, estava sentado no capim, descascando uma laranja, enquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. O preto não atendia aos dous cavaleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fruta e deitando os pedaços da casca ao focinho do animal, que fazia apenas um movimento com a cabeça, com o que parecia alegrá-lo infinitamente. Era homem de cerca de quarenta anos; ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapéu que lhe cobria a cabeça, tinha uma cor inverossímil. No entanto, o rosto exprimia a plenitude da satisfação; em todo caso, a serenidade do espírito. (ASSIS, 1997, p. 36-37)

           Será a interferência do pajem Vicente que através do seu depoimento confirmará que Helena é uma jovem virtuosa não ligada a nada de errado como as fofocas sugerem. O negro, através da sua voz, garantirá ao padre Melchior a idoneidade da protagonista. Interessante, é que o padre se confiará no depoimento do escravo a partir da entonação da voz, pois como já era noite, não conseguia discernir as feições negras de Vicente na noite escura.

O romance possui parcas referências à escravidão, mas quando o faz, é possível vislumbrar a forma que a servidão se estruturava. Lógico que Machado não saiu ileso a estereótipos, principalmente no já citado negro fiel, porém é de interesse ler a escravidão na boca da aristocracia, como no colóquio de uma importante figura que começa a dialogar sobre economia e ao nomear elementos de peso para a máquina pública insere a escravidão.

          Helena pode ser uma obra típica do Romantismo terminando de forma maçante e sem muitos pontos altos, todavia se lido com atenção, além do aspecto dos personagens negros abordado, é possível vislumbrar o início de um grande romancista e indícios do que viria a aparecer a posteriori como sua atenção aos olhos femininos e a rixa de amigos pela mesma mulher.

Referências

ASSIS, M. Helena. São Paulo: Globo, 1997.

BROOKSHAW, D. Raça&Cor na literatura brasileira. Trad. Marta Kirst. Porto Alegre: Mercado aberto, 1983.

DUARTE, E. de A. Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo (antologia). 2ª ed. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Pallas/Crisálida, 2009.

Filmes

Um vento sagrado (2001), direção José Walter Lima

Professor de matemática e latim no Colégio Pedro II, cantor lírico, homem branco, filho de um diplomata e de uma cantora lírica. Essas são as características de um dos maiores Pai de Santo, ou como ele gostava de se intitular – zelador, que o candomblé brasileiro já teve. Agenor Miranda, Pai Agenor, nascido em Luanda, em 1907, veio para o Brasil ainda na tenra idade. Desde a gravidez de sua mãe, seu destino já estava traçado após a profecia de um estranho homem que vaticinou seu destino ao olhar para a barriga de sua mãe. Muito católica, a mulher não quis seguir o conselho do homem, porém depois de uma enfermidade sem causa nem cura, a mãe de Pai Agenor o levou ao terreiro de Mãe Aninha, em Salvador. Assim inicia-se a trajetória no terreiro e onde seus dons serão desenvolvidos.

O documentário acompanha alguns anos do já idoso Pai Agenor, morador há anos no bairro Engenho Velho, no Rio de Janeiro. Sua casa é um lugar de sincretismos: imagens de budas ao lado de ícones católicos. A importância de Agenor é tão grande que coube a ele decidir, através dos seus jogos de búzios, a sucessão de vários terreiros vacantes após a morte da mãe de santo. Um homem muito culto que tornou pai espiritual de diversas pessoas famosas e influentes do Brasil e que nunca cobrava nada por seus serviços.hqdefault

Pai Agenor defendia a não necessidade do sacrifício de animais por conta da tradição ao qual estava ligado no qual as plantas tinham mais importância para as liturgias do que os animais. Isso não é uma atitude vanguardista, mas um posicionamento calcado na linhagem que ele seguia, como argumenta o professor Muniz Sodré. “Todo axé pode ser encontrado nas plantas”.

Não apenas se dedicando ao candomblé, Pai Agenor também era assíduo às missas sendo grande devoto de São Francisco de Assis. Curioso é ele relatando que sempre se encontrava com Cecília Meireles na Igreja, fato este que liga o babalorixá à poesia, uma das suas grandes paixões. Apesar de ter os pés entre várias religiões, Pai Agenor negava o sincretismo religioso entre orixás e santos católicos, atitude similar a de Mãe Stela de Oxóssi.

O documentário pode ser encontrado completo no youtube e é um excelente material para conhecer mais a religião africana e desmistificar estereótipos. 

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Milton Santos, O paí, ó e Pelorinho: intersecção de afeto e cor

O texto de hoje foge um pouco do que costumo escrever por aqui. Partindo de um ponto, no caso o Pelourinho, associei o objeto a outras mídias e referências: Milton Santos, a peça/filme/série Ó paí, ó e minhas impressões sobre o local. A escrita deste texto coincide com o aniversário de Salvador, a cidade que conquistou meu coração.

Milton Santos é sem sombra de dúvidas o maior geógrafo brasileiro. Lembro que meu primeiro contato com ele foi através do único professor de geografia que tive, que assim como o seu ídolo, também era negro. Uma vez em sala de aula, esse meu professor que tinha um temperamento bem calmo, disse com uma exaltação e um furor que em cinco anos de proximidade eu nunca tinha visto. “Milton Santos, um homem negro e de origem humilde, tornou-se o maior geógrafo do Brasil”. Só anos depois que fui entender a importância de se usar o adjetivo negro na frase. Só muito tempo depois é que fui entender minimamente a importância de Milton Santos.

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Sua tese de doutoramento apresentada na Universidade de Strasbourg em 1958 é intitulada “O Centro da Cidade de Salvador: Estudo de Geografia Urbana”. Tive recentemente o prazer de lê-la e recorrentemente associava a minha experiência fantástica que foi conhecer Salvador em 2017. Indo além, também associei a obra de Márcio Meirelles, A trilogia do Pelô (1995), que depois foi adaptada para os cinemas com o título O paí, ó, posteriormente tornando-se uma minissérie.

 

“A área mais densamente ocupada da Cidade Salvador corresponde grosso modo ao centro, parte mais antiga da cidade, cujo sítio é o que apresenta maiores dificuldade de utilização. […] É uma faixa de dois quilômetros de largura máxima, de mais ou menos seis quilômetros de extensão, acompanhando a Baía de Todos os Santos. O centro da aglomeração corresponde à parte mais larga; ele cresceu dente o primeiro século, mais aumentou ainda mais nitidamente agora.” (SANTOS, 2008, p. 58 – 62)

 

A relação está justamente na questão geográfica. A peça O paí,ó, do Teatro do Olodum, que depois de anos sendo transmitida oralmente, passa pela literarização pelas mãos de Márcio Meirelles, aborda a questão da revitalização do centro de Salvador, atingindo em especial os moradores da região da cidade alta, com ênfase aos do Pelourinho. Em 1958, Milton já observava a situação de marginalidade que a região vivia. Outrora um lugar de pompa, tornou-se um ambiente de cortiços, onde várias famílias pobres moravam em condições muitas vezes insalubres, dividindo espaço com prostituição, usuários de drogas. “Os cortiços são o resultado da degradação progressiva desses velhos casarões e sobrados, construídos no centro da cidade quando essa era parte residencial rica.” (SANTOS, 2008, p. 162). Era um ambiente hostilizando pelas políticas públicas e pela própria sociedade. O geógrafo já indicava a necessidade de se revitalizar o local.

Porém, ao usarmos esse termo “revitalizar” esbarramos numa ótica capitalista, no qual intentar melhorar um local ambicionando torná-lo um local que gere lucros, ou seja, aluguéis, turismos, ofertas de serviços. Os que já moram, muitas vezes, são indenizados ou remanejados para outros locais. A questão que surge é: revitalizar para quem? Para os interesses dos negócios o para os moradores? A gente sabe a resposta.

A peça aborda essa revitalização proposta pelo governo do Estado. Já o filme e a série homônima abordam outras temáticas, como o assassinato de vidas negras, o mercado informal, sincretismo religioso, o racismo estrutural, entre outros.  

Minha experiência com o Pelourinho foi mágica. O local é uma transporte à história. A abertura do evento que eu participei foi na antiga Faculdade de Medicina que fica no Terreiro de Jesus. Como meu conhecimento era pífio, não imaginava que já estava na região histórica. Dei umas voltinhas ao redor da praça, tive meus primeiros impactos com a existência exagerada de igrejas por metro quadrado, mas também tomei noção do assédio de vendedores ambulantes. No outro dia, ao turistar foi que tomei noção do local grandioso, riquíssimo e abarrotado de cultura. Salvador é um local que guardo no coração e que espero em breve voltar tendo à tiracolo pessoas queridas para assim como eu, vislumbrarem-se.    

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Movida por essa paixão por Salvador, fui atrás de assistir o filme e minissérie Ó paí, ó. Familiarizada com questões raciais, pude perceber as inúmeras críticas que os diálogos possuem. O personagem Roque, interpretado nas telas por Lázaro Ramos, personifica Sócrates com suas indagações através da maiêutica. Ele tem uma marca de utilizar frases de impactos, e quando alguém o elogia, ele diz que não é dele, e sim de fulano de tal. É um homem culto, crítico, que possui um trabalho braçal mas se divide pela paixão à música. É de todos meu personagem favorito.

O interessante é que o Teatro do Olodum há tempos encena a peça, o livro do Meirelles desde 1995 está nas livrarias, a minissérie foi encerrada em 2008, e só agora, dos últimos cinco anos para cá, é que as pautas negras estão ganhando uma visibilidade que nunca antes havia sido dada. Toda essa produção foi resultado do Teatro Experimental do Negro da década de 40, que foi interrompido com o exílio de Abdias do Nascimento.

Penso que se a trajetória de conscientização racial, de classe e gênero que Abdias e outros intelectuais e militantes negros estavam traçando não tivessem sido interrompidas, hoje seríamos uma sociedade bem melhor e, com certeza, teríamos mais capacidade para escolher nossos representantes.

 

Referências

MEIRELLES, M.; BANDO DE TEATRO OLODUM. Trilogia do Pelô: essa é nossa praia; Ó Pai Ó; Babai, Pelô. Salvador: FCJA; Copene, Grupo Cultural Olodum, 1995. 

SANTOS, M. O centro da cidade de Salvador: estudo de geografia urbana. 2ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Salvador: Edufba, 2008. 

 

Autoria feminina · Impressões literárias · Literatura Brasileira

O Estandarte da Agonia (1982), de Heloneida Studart

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Heloneida foi uma descoberta feita através das menções em artigos do Thomas Bonnici. Este é um professor do Paraná que se debruça sobre autorias femininas e obras literárias pós-coloniais. Foi graças a seus textos que  tive contato com a teoria literária pós-colonial e sua importância nas literaturas africanas. Mas também, foram através dos seus escritos que conheci muitas escritoras brasileiras esquecidas pela historiografia literária, aquelas que você nunca ouviu falar na faculdade de Letras, mas que foram prolíferas em seu fazer literário mesmo em contextos bem adversos, como foi o caso de Heloneida Studart.

A minha veia de pesquisadora sempre me leva a descobrir alguma obra ou escritor “esquecido”. Não consigo deixar passar nomes citados, sem antes ir consultar brevemente na Dona Gugla (termo que ouvi no humorístico Garras das Patrulhas, da TV Diário). Descobri, para minha grata surpresa, que Heloneida é natural de Fortaleza. Pertencente a uma família ilustre cearense, a escritora teve uma vida de encher os olhos a quem almeja fazer algo pela sociedade através da política e da literatura. Fundadora de alguns partidos políticos, foi deputada estadual no Rio de Janeiro e escreveu muito – muito mesmo!

 Até o momento li apenas três livros da autora. O primeiro “Mulher de Cama e Mesa” é de certa forma um manual introdutório ao movimento feminista. No segundo, “O Pardal é um pássaro azul” é um romance em um local indefinido, que supõe ser Fortaleza, onde uma matriarca governa com mãos de ferro sua família, a política e a Igreja Católica. Tem como pano fundo a prisão de um rapaz de maneira bem arbitrária. É visível que o romance é uma alegoria sobre os tempos obscuros da ditadura.

 O estandarte da agonia (1981) também é um romance que aborda a prisão de jovens pela ditadura militar e movimentos de resistências. A protagonista Açucena é uma mulher que cresceu em uma família cheia de personalidades caricatas. A tia que namorou anos e anos e se tornou viúva antes mesmo de casar, a agregada que foi ludibriada por um homem e faz uma romaria a Padre Cícero, e com destaque, uma mãe competitiva, considerada uma mulher muito linda, que sempre cobrou da filha a beleza, a doçura, os parâmetros que ela considera ideais para uma mulher. Açucena cresce nesse ambiente um tanto enlouquecedor até se casar com um engenheiro. Vai morar no Rio de Janeiro, onde terá dois filhos, Luís e Margarida.

Açucena é alucinada pelo filho. Ela possui um relacionamento criticado pelos familiares a sua volta que consideram que não é correto uma mãe ser tão apaixonada pelo filho. É meio Jocasta e Édipo. Há algo de doentio na fixação da mãe no filho. Em um dado momento, Açucena comenta que seu filho é a continuidade do seu primeiro amor. Lá na adolescência, a então adolescente, relaciona-se com um rapaz. Disposta a se entregar sexualmente a ele, vai até sua residência, onde o encontra com outra mulher nos braços. Esse trauma sentimental influencia seu relacionamento com o filho, no qual ela resgata através da relação maternal a entrega do primeiro amor.

A narrativa já inicia-se com o desaparecimento de Luís e tendo Açucena a única preocupada com o paradeiro do rapaz. Ela pressente que algo não está nos conformes. Depois de 24h do sumiço, a mãe vai em busca do seu paradeiro em delegacias, hospitais… e nada. Então, o temor que o jovem tenha sido capturado por forças ligadas à ditadura ganha contundência. A vida de Luís justifica essa suspeita. O rapaz gostava de capoeira e a ensinava para crianças de uma favela, questionava a política e os costumes, possuía apreço pela cultura afro, queria prestar vestibular para História para um dia ser professor, ou seja, era um rapaz que fugia da sua condição de pertencente a uma família de classe social elevada.

Em sua busca pelo filho, a frágil Açucena resgata uma fortaleza há tempos sufocada. Em paralelo, envereda pelo submundo dos porões da tortura ao passo que conhece uma faceta desconhecida do filho. A mulher passa a vivenciar conflitos internos sobre as descobertas feitas e conflitos externos contra homens poderosos pertencentes ao poder de repressão.

É uma narrativa forte, visto que em alguns momentos Heloneida recorre a descrever as estratégias de torturas. Algumas tinham como fim obter informações. Quando o castigo físico não resultava em confissões, utilizava-se pessoas queridas, como bebês (fato que eu desconhecia). Porém, também havia as torturas para o bel-prazer dos torturadores. Há um personagem responsável pelas práticas agressivas que confessa que só conseguia dormir à noite, se no dia ele tivesse torturado um rapaz em específico. A escritora utiliza de fatos reais, como quando ela fala de um frei que sofreu inúmeras torturas e depois se matou por ver seu torturador direto em suas alucinações (alusão ao frei Tito). Suas descrições são tão frias e ao mesmo tempo asquerosas, que temos a sensação de que a escritora possui intimidade com os atos (Heloneida foi presa pelo DOPS).

O romance também possui uma narrativa paralela sobre os costumes de matriz africana que a empregada doméstica, Cota, realiza. Muitas vezes há uma zombaria contra o que a mulher fala, em contramão, sabemos que Luís possuía profunda admiração e bebia muito a resistência do povo negro.

Heloneida pode ser encontrada facilmente em acervos de sebos, como ocorreu comigo, ao encontrar O Estandarte da Agonia, em um sebo ainda autografado pela autora. Seu pano de fundo nunca foi tão atual. 

 

Referências

STUDART, H. O estandarte da agonia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.